segunda-feira, 22 de abril de 2013

As meninas superpoderosas, sem falsa modéstia

Ai ai, por mais que eu reclame de vários aspectos da organização da prova, das dificuldades, a Volta à Ilha é imbatível.
É uma prova diferente, o clima é diferente. E a cada ano aprendo mais sobre a prova, sobre a corrida, sobre as pessoas, e sobre mim.
Foi minha terceira participação, a primeira vez em equipe de competição, a primeira vez em uma equipe feminina. Vaga conquistada a duríssimas penas na Maratona Express do ano passado. De lá para cá, algumas coisas mudaram: uma engravidou, outra lesionou, outra voltou da lesão, melhor do que nunca.
A ideia era sermos uma equipe forte, com chances de pódio. Mas nem tudo saiu conforme os planos originais... Com as adequações feitas na época da inscrição, fomos treinar.
Embora eu adore a prova, mantive meus objetivos pessoais enquanto treinava. Além disso, fiz a viagem para os EUA, o que resultou em três treinos de corrida (dois treinos e uma prova) ao longo de quase 20 dias, os últimos antes da prova. Cheguei destreinada, gripada e com a tosse do cachorro louco, horrível. Faz parte.
Faltando pouco tempo para a prova, mais uma baixa: uma lesão no joelho tirou uma atleta da prova, sem tempo hábil à substituição. Embora ela se sinta culpada, o grupo é todo solidário à sua dor (física e mental -  a frustração foi grande), lesão é assim, pega de surpresa, não tem o que fazer. Só resta se tratar que ano que vem tem mais.
Só que assim fomos passando para equipe de sobrevivência, ou seja, o objetivo passou a ser terminar no tempo. Com uma a menos, uma de nós teria que dobrar os trechos correspondentes à corredora original, segundo as regras do Volta à Ilha. E sobram dois trechos para dividir entre as seis corredoras restantes.
Pela primeira vez a questão do tempo realmente importava: além dos horários de fechamento do postos de troca, 14h15min para terminar a prova.
O melhor de tudo é o envolvimento na equipe. A prova não é de cada uma, é de todas, de todas por todas, e nos divertimos muito na preparação. As conversas por mensagens eram divertidíssimas (e impublicáveis), todas com a vida atribulada, então o negócio era se falar virtualmente, e fizemos uma reunião só nossa, para divisão final de trechos e organização dos carros.
A super grávida Amanda não pode correr, mas a organização da equipe, da transição, dos carros... tudo por conta dela. Montou planilha com os tempos previstos, carros de apoio para cada uma, serviço mais do que completo, com simulações, ainda foi nossa motorista, e sempre com um sorriso no rosto. Sem ela, a parte tática da prova não existiria, e Volta à Ilha exige estratégia, não basta correr. É asfalto, morro, trilha, praia, areia fofa, duna, areia batida, água, tem de tudo, e muitas vezes nem dá para chamar de corrida.
A volta é real, são 140km rodando o que Floripa tem de mais bonito: beiramar norte, segue pela SC 401, Cacupé, Santo Antonio de Lisboa, Sambaqui, praia da Daniela, Jurerê, Cachoeira do Bom Jesus, Praia Brava, Santinho, Moçambique, e depois leste da ilha, com  Barra da Lagoa, morro da Praia Mole, Joaquina, e dali para o sul, Campeche, Armação, Pântano do Sul, Base aérea, Baía Sul, voltando para a beiramar. Difícil não se apaixonar pela ilha...
São apenas dois carros autorizados a transportar as atletas, com penalidades (de tempo) para infrações.
Cada atleta se envolveu de alguma forma, comprando gel de carboidrato, frutas, bebidas, fazendo almoço, colocando o carro à disposição... e o namorado, já que o Walter, namorado da Giovana, foi nosso segundo motorista, coitado, passou o dia na função e ouvindo mulheres falando...
Confesso que eu estava com um medinho a mais dessa vez, porque a tosse não me deixou correr direito na semana anterior.  Fui para fazer o melhor possível nas circunstâncias. E especialmente, fomos todas para nos divertir. A pressão já tinha reduzido bastante.
A Adventure Sports, nosso grupo de corrida, levou três equipes, era uma festa encontrar o pessoal ao longo dos trechos.
Nós largamos às seis da manhã de um dia que prometia ser de sol e calor, com o amanhecer lindíssimo, típico de outono. Todas juntas na largada apoiando a primeira atleta, que já ia começar dobrando o trecho.
Dali em diante é pancadaria. Os dois carros abastecidos de comida, suplemento, hidratação, toalhas, papel higiênico, e até um kit de primeiros socorros levado pela nossa atleta prestes a se formar em medicina, e vamos seguindo o esquema, um carro entrega uma atleta e busca a outra, e leva para o próximo trecho de uma de nós, tudo devidamente planejado.
Aconteceu o de sempre em dias de sol: de manhã tudo tranquilo, mas à tarde... trânsito intenso na cidade, dificultando o transporte dos atletas, tanto que vimos muita gente chamando mototáxi, e nem todos chegavam no destino antes do atleta anterior chegar.
Nós conseguimos, em todos os trechos. No meu segundo trecho, cheguei um minuto depois da próxima chegar no posto de troca...ufa!
Concentração total para os percursos, mas sem perder o bom humor. Tinha gente muito bem treinada, outras nem tanto, outras estreando em provas... mas principalmente todas dando o melhor de si, eu já estava com um orgulho danado de estar naquela equipe.
Fiz os trechos 5, 13 e 18. O 5 sai do início da praia da Daniela, passa pela trilha para praia do Forte, desce para Jurerê, terminando na praia. Trecho curto, 5,1km, em local bem conhecido.
Mas acordando antes das 5h da manhã, sem ter dormido tudo o que merecia e precisava, doente... foi dureza. Nem pensei em levar água porque eram só 5km, mas o sol  estava forte, e como o percurso já iniciava subindo a trilha, meus batimentos subiram rápido, forcei logo de início, e a tosse veio com tudo, queimando o peito, e isso me fez parar para tossir, papelão... Mas eu pensava que não adiantava forçar demais, era o primeiro de três.
O tempo final foi bem além do programado, mas outras atletas tiraram a diferença fazendo em tempo menor.
O 13 é a praia da Joaquina. Com o dia perfeito que fez, correr na praia é tudo de bom. Mas era pelas três da tarde, sol no lombo. Embora não goste de correr contra o vento, foi sorte que tivesse algum para refrescar. Dessa vez, eu já estava mais consciente das minhas limitações, levei água, e quando percebi que o peito queimava, reduzi a velocidade para dar conta sem me acabar, e terminei feliz. Entre o primeiro e segundo trechos, tempo suficiente para almoçar e reforçar a hidratação, o que era altamente necessário considerando o calor que fez. Além disso, muito BCAA para ajudar na recuperação.
Como sempre, a hidratação é por conta da equipe (recomendo a leitura de uma reportagem sobre ssse assunto na Contrarelogio deste mês), mas no segundo trecho que fiz houve a distribuição de água no km5, pequenos copos com pouca quantidade, mas sempre melhor do que nada.
Terminado o segundo trecho, já tinha gente só esperando a chegada. Não eu, que tinha que fazer o último trecho. Tínhamos tempo até o horário calculado, ainda conseguimos tomar um café, que foi ótimo para levantar o ânimo.
Enquanto isso, as meninas do outro carro iam fazendo seus trechos, inclusive o tão temido Morro do Sertão, que sinceramente acho que nossa atleta tirou de letra.
A mente é muito poderosa mesmo. Eu estava cansada, mesmo tendo corrido menos do que outras atletas e do que eu mesma em anos anteriores, mas com a saúde debilitada e sem o treino adequado, é assim. Ainda assim, estava com gana de correr o último trecho, vontade boa. Acho que outra atleta teria feito em menos tempo, mas confiaram em mim quando me ofereci, então nesse eu sabia que podia dar o máximo de mim, porque era o fim.
O posto de troca já tem uma energia diferente, porque muita gente ali está lutando contra o tempo, para terminar no prazo, e ficam muitos atletas esperando para dar apoiar o último da equipe, até correndo junto. É muito animado.
E que trecho! Larga no terminal urbano do Saco dos Limões, atravessa a passarela, e corre pelo Saco dos Limões, caminho antigo, de antes do túnel. Lindo, lembrei da minha infância, era o caminho que fazia com meus pais de casa para o centro da cidade. Tem um visual sensacional.
A noite estava clara, uma super lua crescente, temperatura perfeita, asfalto direto, com alguns aclives. E para completar o cenário perfeito... a ponte Hercílio Luz iluminada. Quando eu vi a ponte, me deu uma renovada na energia.
E dali é para a chegada, pela Beiramar Norte, já ouvindo o barulho. Faltando uns 300m, vieram a Clenir e a Lilian completar comigo, e a reta final é o máximo mesmo, todo mundo dando força, o pessoal das outras equipes da Adventure esperando e gritando. Passei sozinha na chegada, registrando o tempo com o chip, todas vieram em seguida, demos um abraço e continuamos até o tapete vermelho, para a chegada triunfal da equipe completa, com os filhos, muito emocionante. Desse momento em diante é só festa, entrega de medalhas, alívio por termos terminado dentro do tempo determinado.
Fomos todas guerreiras, foi uma superação dos limites.
E isso não seria possível sem um trabalho que envolveu várias pessoas: o Rodrigo, coordenador das equipes e que sempre puxa a gente para cima e vai atrás das vagas, confiando na equipe feminina, o Walter, nosso top motorista (única equipe com motorista modelo), Amanda com Eliza na barriga acompanhando, e maridos, que ficaram com as crianças, dando tranquilidade para corrermos.
Eu tive a honra de participar de uma equipe de atletas de qualidade e mulheres de fibra, coragem e alegria de correr.  Parabéns, queridas  Grazi, Bruna, Giovana, Rita, Clenir, Lilian, e Simone, cada ano melhores!!