sábado, 26 de julho de 2014

Sandálias da Humildade e Desafios

Decidi que gosto de fazer meia maratona. O treino é bom, os longos são num limite razoável de duração, e no dia da prova é possível encaixar respiração, postura, braços, ritmo...isso quando dá tudo certo e você treinou adequadamente. Diferentemente de provas de 10km, que dá para fazer quase toda semana, se quiser, meias exigem um certo descanso entre uma e outra. Pelo menos para mim.
Tive uma semana particularmente difícil e dura no trabalho. Naturalmente, isso foi na semana de plantão da escolinha, quando não tem jantar para as crianças e tem que buscar Arthur mais cedo. Mesmo que não fosse mais cedo obrigatoriamente eu iria, porque a fome da criança transforma aquele fofinho em um monstro aterrorizante do mau humor.Treinos reduzidos a quase zero. Semana off, chamemos assim.
Para completar, sexta e sábado eu tinha uma turma para dar aula na pós graduação em Floripa. Aceita há vários meses, nem pensando que poderia ter prova de corrida no dia seguinte. Aula significa ficar em pé, sexta a noite e sábado até às 16h...no salto. Só melhora. A parte boa é que a turma era excelente, foi uma delícia dar aula para eles.
Isso tudo para dizer que às vezes temos que adaptar os planos ao que é possivel. Inicialmente eu queria baixar meu tempo do ano passado nessa prova, que por acaso foi o melhor da minha vida. Depois, manter ja era uma boa. No sábado à tarde, depois da aula e de almoçar camarão tomando vinho branco, conseguir voltar para casa ainda no sábado,  acordar e sair para correr parecia uma ótima ideia. E isso não é só uma explicação para o resultado final, é a vida como ela é.
Domingo fez um baita frio. Eu me sentia tão cansada...mas o negócio é não pensar. Levanta, toma café, roupa, tênis, apetrechos, gel, vamos. #correquepassa. Nunca me arrependo de ir, só de não ir.
Acho a prova do Bela Vista muito bem organizada, com hidratação e a premiação por categorias que eu valorizo. E começa no horário. Mas ainda não entendo por que o pessoal dos 21km larga com o pessoal dos 6km, que querem voar e qualquer 10 segundos é tempo precioso. 
Também não me conformo em não ter tempo líquido, com o tapete com chip só na chegada, obrigando, também pelo fato acima, quem quer fazer tempo se atropelar na largada, para não perder tempo precioso.
O percurso não é plaaaaaano como propagado. Pelo menos para mim, subir um viaduto, descer, e voltar por ele, não é uma reta. Apesar disso, é bom. Também serve para vermos como o asfalto da estrada está ruim.
Eu não queria ser puxada pela Clenir para não ter responsabilidade. Mas quando chegou a hora da largada, eu já tinha tentado pensar em estratégias para a prova, e nenhuma parecia boa na circunstância, então eu resolvi arriscar: ir com a Clenir e a Paulinha (que foi para baixar o tempo dela) no ritmo forte enquanto desse. E ver o quanto dava. 
E assim fomos. Ate que as pernas responderam melhor do que eu esperava, consegui manter sem tanto esforço os primeiros 7km, fazendo pace de 5', as vezes até menos. A segunda parte já não foi tão tranquila, mas mantive 5'05, 5', que era, na verdade, o que eu pretendia no início dos planos. Na verdade, o ideal era ter largado mais tranquila, como me sinto mais segura, para 5'15, e depois acelerar. Mas sinceramente, do modo como me sentia, tinha a impressão de que não ia sobrar para acelerar no final. Assim, já estando meio perdida mesmo, escolhi a estratégia de ir para a morte. No km 14 o sonho começou a desmoronar e do km16 em diante, quebrei total. Dei uma caminhadinha para hidratar e tudo, mas só uma vez, e depois decidi que ia correndo, sem pensar, só correndo. Mas as pernas pesaram, até dor nos gluteos eu tive (sem musculação na semana anterior, nada funcionava), e tive que reduzir, cheguei a fazer 5'36 um km, bem triste. Mas nada que eu não imaginasse que pudesse acontecer. Na hora eu pensava em como seria legal se a prova fosse de dez milhas...hahaha.
E o vento na volta? aquele que não vem no verão...gelaaaaaadooooo, minhas mãos ficaram duras, terminei a prova com frio!
Claro que não baixei meu tempo, muito menos mantive. Fiz em 1h51', ou seja, regressão, porque passei de 1h50', algo que não queria que acontecesse. Ninguém mandou, né? Ainda assim, melhor ir do que se arrepender de não ter ido.
Cheguei super cansada, sofrida mesmo, o penúltimo km não terminava nunca para chegar o último...
Não gosto de me sentir assim. Gosto de ter dado o meu melhor sem que isso signifique sofrer tanto. Para mim, dar o melhor é fazer o melhor possivel do dia que se apresenta, com a diversão. E o dia não era bom para mim. Mas não era bom pelo conjunto da obra dos dias anteriores, e pelo não cumprimento da planilha. Isso, para mim, não é suficiente. Não quero mais fazer isso, de ir sem ter feito a preparação que faz eu sentir que posso dar o meu melhor do dia.
No final das contas, meu desempenho não foi dos piores, claro que não, e na verdade acho que fui muito bem para as circunstâncias, e saber que posso fazer melhor do que isso com treino, já da um bom incentivo. Também não é o caso de dizer que sou top porque em dia que estou mal me supero e sou incrível...porque isso não é verdade.
Para quem é competitiva, é duro ser ultrapassada por meninas que sempre chegam atrás de mim. Maaaaas, o negócio é ter a maturidade e serenidade de perceber que aquele era o dia delas, e não o meu. E isso eu consegui. Fiquei mais frustrada pelo meu estado no final da prova do que pelo resultado. 
Ainda consegui o 5o lugar da categoria, está excelente, considerando o tempo da Giani (incríveis 1h38'), e ela ficou em segundo. Esse tempo não é para mim, nem com muito treino. E fiquei em segundo lugar entre as sócias do clube, muito legal isso.
A Paula fez um baita tempo, manteve o ritmo e foi ótima, a Simone também, baixou o tempo dela, me ultrapassou facilmente, muitos parabéns. Achei que em geral foi uma prova boa para todos. E, se não fossem a Clenir e a Paulinha, depois o Sukita junto, eu nem teria feito esse tempo, porque ia fazer os primeiros km na maior preguiça, e não no pique. Muita gente conhecida, muitos incentivos, Simone Ponte Ferraz arrumando minha postura, gente torcendo...isso é o que não tem preço, a diversão da vida. Gente correndo pela primeira vez, experimentando, se arriscando.
Aprender e evoluir. Sempre.
Beijos, bom final de semana!