quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Meia maratona do Rio: missão cumprida? Nãããão, sonho realizado!

Quase todo mundo que corre, depois que participa de algumas provinhas, começa a ter algum "sonho de consumo", uma prova especial  para fazer. Ou várias. Começa participando de uma prova de 5km local, e depois vai alçando vôos maiores, não necessariamente em distância, mas em importância de prova.
Quero dizer que nem todos que começam correndo 5k necessariamente sonharão com uma maratona, mas podem sonhar com um 5km em uma prova do Circuito das Estações  da O2, ou Track and Field, ou até fora do país.
E pode também querer aproveitar uma prova especial para aumentar a distância. Com a meia maratona de NY foi assim: eu voltei de um almoço com a Simone, falamos no assunto, entrei no site e me cadastrei para o sorteio de vagas, e nunca imaginei que fosse dar certo, era um super sonho. E assim fiz minha primeira meia maratona, em NY, no meio de 15 mil pessoas, em uma das provas mais bem organizadas (talvez a mais) que ja fiz.
Importante é saber separar o tipo de sonho: performance ou linda prova. Essa foi a minha lição da vez.
Escolhi a meia maratona do Rio para comemorar meu aniversário. Fiquei em dúvida entre essa e a Golden Four Asics de São Paulo, considerada a meia maratona mais rápida, ou seja, ideal para baixar tempo. Acho que se estabelecesse como prova alvo, o coach passaria um treino adequado, e eu teria me preparado para fazer um bom tempo.
Mas, sendo celebração, eu quis uma prova astral, com paisagem, e, sinceramente, o Rio é um dos melhores nesse quesito. Adoro o Rio, passei a maioria das minhas ferias de julho lá até a adolescência, e tenho tios e primos queridos por lá.
Assim,  me inscrevi  e não fiz exatamente uma preparação especial, fomos só mantendo os treinos, e considerando que teria uma prova longa no período.Faltou só dizer para o meu cérebro emocional que não tinha objetivo de tempo...
Só pude viajar no sábado, último dia de entrega de kits. Apesar dos apelos no site para a retirada antecipada, o povo adora fazer as coisas em cima da hora, de maneira que a fila na frente da loja da Centauro era imensa, mas, surpreendentemente, não era lenta. Bem organizada, mas ao estilo carioca: mais informal, com muita gente falando alto e ao mesmo tempo. 
Primeiro você pegava o numero, e de posse do número ia pegar os demais itens. O kit: além da camiseta (não linda, mas simpática, e de tecido bem razoável, a grande maioria usou na prova), os tais brindes de patrocinadores: gel de carbo (da marca que não gosto), barrinha de cereal de marca nova nesse mercado (mas conhecida no de chocolate), torrone de amendoim da mesma marca, um sachê de capuccino e um pacote de 250gr de café. Sim, café. 
Vinha o famoso cupom de 10% de desconto na loja, e, espertamente, a retirada do kit era feita de modo que voce subitamente estava dentro da loja. Tentação, porque a loja é enorme, muitos itens. 
Agradecimentos especiais ao Tio Dante, meu padrinho, que nos levou até a Centauro, e ao meu primo Ricardo e sua esposa Ana Paula, que, com os filhos,  ficaram com o Arthur durante a tarde para que eu o poupasse dessa chatice.
No domingo, a largada estava marcada para as 9h. E isso lá é horário de largada de meia maratona, no Rio? Não, não é. Mas é o horário da Rede Globo, a senhora do universo que, patrocinadora da prova, ia transmiti-la ao vivo no programa de esportes dominical, que começa às....9 horas, ou perto disso, tcharam!! Primeiro largavam cadeirantes, elite, e tal, e os mortais amadores às 9h.
Eu fiz como fiz em NY: cheguei às 8h15min, fiz o xixi básico no banheiro químico antes que ficasse só biológico, e fui para o meu curral, que não era bem um curral, era um local com bandeira indicativa do pace. Fiquei entre o 5'30" e 5', bem mocinha, esperando a largada. Em pé. Sozinha.
Tudo bem, fez um dia sensacional de sol, e a Praia de São Conrado, local de largada, estava linda de viver. Liguei o ipod, que estava com uma seleção preparada para o evento, e fiquei curtindo mesmo, acho que devo ter dançado.
Mas o sol ja prometia...calor.
E  eis que, faltando uns minutinhos para o horário, começou a passar ao meu lado um povo que não tinha muita cara de ligeiro, sabe? sem preconceito, não era bem a questão de tipo físico, era mais o estilo: em bando, fantasiados, cantores, alegrinhos, placas, faixas, um pessoal mais festivo do que corredor. Demorei para me dar conta: ia passar na TV a corrida, especialmente a largada, e o povo adora uns segundos de fama, impressionante! Tinha de um tudo, claro: herois em geral (batman, homem aranha, super homem), homem (um senhor, na verdade) vestido de mulher feia, anjo, planta (sim, planta, com folhas), pato donald, e uma infinidade de origens: placas diversas de locais de todo o Brasil, todo mundo querendo mostrar sua plaquinha na rede Globo de televisão, cujos horários de novelas já mandam no futebol, então o que é uma corridinha?
Só que eram quase 18 mil pessoas inscritas!! A maior prova de que participei, superando NY e Buenos Aires. E eu achando que em Buenos Aires era meio bagunçado...sabe de nada, inocente!
Porque tinha pipoca, um bocado de pipoca, ocupando espaço valioso na estrada.
Então tocou a musica de abertura do programa esportivo, com o que entendi que tinha sido dada a largada. A largada me emociona, em geral, e fiquei lacrimejando, mas passou rápido, porque estava tudo meio confuso. Levei mais de 15 minutos até o pórtico de largada efetivo com tapete de chip, o que é normal, mas era bem ali a câmera da TV, então correr que é bom...nada. 
Difícil demais correr! Como muita gente não respeita o pace indicativo, claro que quem largou antes de mim não corria mais rápido do que eu, necessariamente, e muitos nem sabiam que isso era uma indicação, eu imagino. Muitos paredões, ou seja, amigos correndo juntinhos, devagarzinho, um ao lado do outro...uns 5 em um espaço de 5. Ruim. 
Os dois primeiros km eram a subida da Niemeyer. Lindo demais o visual de lá, eta marzão, mas subida constante, de maneira que no primeiro km ja tinha gente que decidiu caminhar, e ultrapassar naquela multidão era muito difícil. Pior para mim, que queria ultrapassar, porque eu estava bem, queria correr! Não gosto de me enrolar na subida, gosto de ir de uma vez.
Mas depois, analisando melhor, percebi que consumi muuuita energia fazendo isso, de correr, parar, ultrapassar, parar, trotar, correr, desviar...mais do que o recomendável. Talvez fosse melhor ter largado mais atrás, beeem lá atrás, e esperar alargar a estrada, ou beeem mais na frente, para tentar me manter à frente. Ou talvez só ter trotado e pronto, ficava nos 6' por km, mas ia mais constante, e teria me frustrado menos.
A descida vai direto para a Favela do Vidigal, e foi o momento mais emocionante da prova. Muita gente na beirada da estrada, e outros nas janelas e do lado de fora de suas casas, aplaudindo e incentivando, estendendo a mão para bater, levantando a galera, legal demais!!
Dali em diante, quase tudo pela orla, Leblon, Ipanema, Copacabana, então tunel, depois Botafogo e Flamengo. Lindo demais. Só abria mesmo para ter espaço para todo mundo quando chegava no Leblon, onde ficou mais fácil de correr e já tinha ficado bastante gente para trás e la na frente.
No túnel, todo mundo começou a bater palma ritmado, bem legal tambem.
Hidratação fartíssima em toda a prova, com pontos  de agua e pontos de isotônico, que vinha em saquinhos para rasgar com os dentes e tomar. Água em copo, e muita falta de educação.
Uma amiga querida, a Sissa, sempre me fala das provas no exterior, como são mais organizadas, e a gente não imagina tanta diferença. Mas em provas grandes essa diferença aparece. Havia muitas latas de lixo, e elas são alaranjadas, impossível não ver. Mas as pessoas não só jogavam os copos no chão, como não era próximo à calçada, era no meio da rua mesmo, enquanto corria, copos vazios e outros nem tanto, ficando um mar de copos espalhados a cada 5km, e por pelo menos uns 400m, os seguintes passando por cima, pelo lado, chutando, e jogando os seus, uma vergonha!
O amadorismo está em pequenas coisas: tumulto para pegar agua no primeiro tanque, como se não houvesse mais uns 5 adiante, causando mais confusão. Os saquinhos vazios de isotônico também iam para o chão, e com tudo úmido, fácil era escorregar. Mais um ponto para ter que reduzir a velocidade.
Fiquei envergonhada porque a sujeira que nós, corredores, fizemos (não, eu não joguei no chão, sou estressada com isso, mas estava no meio de todo mundo), não combina com nosso estilo de vida e discurso de sustentabilidade.
Largando as 9h20min, mais ou menos, às 10h30min eu estava cansada e com calor, muito calor. Parei para tossir (a sinusite já tinha atacado sexta feira e tive febre e tosse à noite no sábado), faltou fôlego, e caminhei a partir do km15 diversas vezes, sentia que meu gás havia acabado. Cansei, e minhas pernas chegaram a amolecer. Um cara veio ao meu lado e disse que ia me dar ritmo, foi ótimo, fomos uns bons 3km juntos, devagar, mas sem caminhar. Tomei o gel direitinho, isotonico, joguei água, mas quebrei, fazer o que? (de novo). Quando percebi que não ia fazer em menos de duas horas a prova, desabei em desânimo, só pensava em terminar mesmo, até a paisagem ficou mais sem graça porque eu fiquei frustrada. No último km dei uma apurada para terminar, estava no meu limite,  me arrastando. Meu problema é que me sinto melhor correndo rápido, funciono melhor, mas estava tão acabada que tinha medo de não terminar, aquele negócio. Vivendo e aprendendo.
A chegada é sempre ótima, mesmo não tendo sido um bom desempenho. Fora que corri 21,450m, o que credito não apenas à diferença de medição, mas ao meu zigue-zague mesmo, puro desperdício.
Realizei o sonho da prova no lugar lindo, com astral show, como eu queria. Esqueci de adequar meu lado competidora a esse sonho, o que quase o estragou. Na hora que terminei, fiquei aliviada pelo fim, e só depois feliz por ter corrido, quando parei de achar que devia ter tido um bom desempenho. Para isso tenho muitas provas que não têm nada do que experimentei no Rio. 
Aquele povo todo chegando, correndo em diversos ritmos, a democracia que é a corrida de rua, com magros, gordos, altos, baixos, jovens, menos jovens, todo mundo com o mesmo jeito, muita alegria...bom demais.
E olha, não estava bom para mim, nem para muitas outras. Quando fiz a volta para terminar, no km 18, achava que estava chegando atrás do universo todo (sim, sou assim), mas ai vi quanta gente ainda faltava, que não tinha feito o retorno ainda.
Tanto assim que fiquei em 709 entre todas as quase 4 mil mulheres, o que considero muito bom. E 129 na minha categoria.Mas, sinceramente, nesse caso isso não tem a menor importância. O que eu me lembro é do calor, de não ter corrido como gostaria, mas especialmente das pessoas incentivando, da corrida solta vendo o mar, do cheiro de mar que eu adoro mais do que tudo, da agradável sensação de estar no lugar certo, na hora certa,  fazendo o que gosto, e sabendo que meus amores me esperavam ao final. Isso é um baita aniversário. beijo e até o próximo desafio!!