segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

As pessoinhas...

Em desenho animado ou gibi, quando a pessoa tem que tomar uma decisão, aparece o diabinho em um ombro e o anjinho em outra, todo mundo já viu isso. Então. Acho que não é só um anjinho e um diabinho, acho que são várias pessoinhas que habitam nossa mente e aparecem vez ou outra para dar pitaco. 
Não, eu não ouço vozes. Nem vejo duendes. Não desse jeito de precisar de ajuda psiquiátrica. Mas às vezes é como se partes do meu corpo ou da minha mente virassem pessoinhas e falassem comigo. Ah, nunca aconteceu com mais ninguém? Duvido.
Sábado ou domingo, treino longo. A pessoa não acorda no horário programado, mas tem os zilhões de km para correr (a quantidade de zilhões é individual). E então vem o anjinho e diz: vai  lá e cumpre a missão, e no final toma um super whey com bcaa e glutamina. Mas o diabinho também aparece e diz: já está perdido, isso nem é mais hora, vai direto começar a tomar cerveja que é o que você realmente quer fazer. E como a vida não é preta ou branca, e sim cheia de nuances de cinza, eu tenho um anjinho meio maloqueiro, de tênis, que diz: vai lá e corre logo que a cerveja vai estar trincando quando terminar! Uhuuu!
Costumo chamar essas pessoinhas de grilos falantes, a voz da consciência.
Neste meu retorno gradual aos treinos de corrida, tenho esquecido de levar o ipod, então "ouço as vozes", é o que me sobra. E na verdade estou já achando que elas são a tal força da mente, que os atletas evoluídos tanto falam que é importante nas provas. Treinar a mente, e tal e coisa, correr com a alma quando faltarem as pernas...bom, acho que isso tudo tem muito a ver com você se conhecer, e saber reconhecer os sinais que seu corpo envia.
Nesses dias de celebrar o simples ato de correr sem dor, fiquei me lembrando extamente  do início das corridas na minha vida, e de como agora eu sei reconhecer os sinais o suficiente para continuar ou parar.
Basicamente é assim: logo que eu começo, nos primeiros 30 segundos, ou até uns 200m, dá aquela alegria de estar correndo, e vem a pessoinha magrinha de tênis dizer: viu? é isso que você sabe e gosta de fazer, soltando as pernas, o delícia que é, que bom que voltamos à ativa, vai correr 15km agora, a louca.
Só que em seguida começa a ser ruim. Muito ruim. os primeiros 10minutos, mais ou menos 2km, são os piores de todos para mim (e para várias pessoas que eu conheço). A pessoinha que aparece no ombro é gordinha, está comendo sorvete Haagen Daz de doce de leite e vendo The Good Wife. E essa pessoinha me mostra a ofegância, as pernas pesadas...e te diz: para que foi começar? tão bom que é botar o biquini e ficar deitada na cadeira lendo o livro! para logo enquanto é tempo, está sofrido demais, não faz sentido, vai brincar com o filho.
E é nessa hora que faz diferença você se conhecer como corredor. Quando comecei a correr, era muito difícil cruzar essa barreira. Só que eu sei que aquilo vai passar. Atualmente não é que fique perfeito, falta muito, mas eu sei que vou encaixar a respiração, ajustar a passada, relaxar, e vai ficar bom. Se você se deixar levar apenas pela sensação naqueles 2 primeiros km, vai desistir, porque dói tudo e falta ar. Não ouça a pessoinha que diz que você quebrou e o treino acabou. A não ser que você sinta algo realmente diferente, ou já esteja em um dia ruim. O corredor que se conhece também sabe distinguir uma coisa da outra.
E qual a estratégia? De uns tempos para cá, tendo ou não planilha, acho que a que funciona melhor para mim é a de não pensar no total que vou correr, e sim em mais um km para rodar. Porque aparece a pessoinha de tenis, agora menos faceirinha, já cansada,  mas esperançosa, que diz: mais um km, então, corre só mais um. E assim, vou de km em km, fazendo só mais o próximo, até o momento que posso parar, seja porque acabou o treino, seja porque conscientemente sei que cheguei ao limite, ou porque, na atual situação, ainda não conheça exatamente o limite. Mas eu fui e fiz. E quando acaba...ah, todo mundo sabe como é quando acaba. Aquele torpor alegre que toma conta do corpo. As pessoinhas estão todas reunidas, em volta de mim, comemorando, só discutindo sobre o que será a hidratação pós treino.
No final das contas, alguma iniciativa a gente tem que ter. No começo pode ser uma atitude consciente, e depois vai ficando no automático.
Dá preguiça de ir para a musculação algumas vezes, e o pior é não reconhecer a preguiça e arrumar desculpas, mas aí não penso muito, arrumo as coisas e vou, como se fosse um compromisso mesmo.
E depois que eu estou lá, a pessoinha marombada aparece no meu trapézio e diz: arrependimento só dá quando a gente não vem...
E o treino é assim. Levanta, põe o tenis, amarra o cabelo e sai correndo. Depois de ultrapassar a barreira, você vai lembrar do que estou dizendo.
Esse post é para todo mundo que está voltando, tendo parado por vários motivos, e para aqueles que sabem que têm que voltar (ou recomeçar, ou começar), e  estão ouvindo demais a pessoinha de chifrinhos...