sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sublimática Volta à Ilha

Já penso em escrever sobre nossa Volta  à Ilha desde muito antes da prova acontecer. Agora que já passou, tenho até dificuldade, porque me emociono quando lembro de vários eventos na nossa trajetória, e de tudo o que aprendemos.
Claro que muita gente teve dificuldades para a prova, cada equipe tem sua história, e aqui está a nossa. Sem mimimi, a vida como ela é.
Desde 2012 estamos alimentando nosso sonho de formar uma equipe feminina, de preferência de competição. Quase todo mundo que lê o blog deve saber, mas  importante lembrar que a Volta à Ilha  não é uma prova exatamente como as outras. Isso porque, de início, não basta se inscrever. Na verdade, você não pode se inscrever. É em equipe, necessariamente (no mínimo 2), para correr 140km em Floripa, contornando a ilha, ou seja, no melhor cenário possível. Isso atrai muuuuitos interessados, certo? Ah,  você deve conquistar a vaga da sua equipe. Como? Vencendo outras provas organizadas pela Ecofloripa. Ou mediante sorteio de vagas, o que não é tão emocionante (igualmente ótimo, por outro lado). Então, é mérito ou sorte. Simples assim.
Em 2012 corremos a maratona express, uma maratona em equipe, correndo cada uma séries de 1km em rodízio. Um horror, devo ter falado dela (não clique aqui, não é um link). Mas, ficamos em segundo lugar, e isso nos garantiu uma vaga, que conseguimos que fosse feminina, e com a formação que desejássemos, para 2013. Aconteceram imprevistos, lesões, baixas, e no final tínhamos uma corredora e menos, não tínhamos reserva (na ocasião não sabíamos que isso era possível  - amadorismo nosso, confiamos no coordenador da nossa equipe, que não ia correr conosco), e a Clenir - top master blaster corredora nata - teve que dobrar trechos, foi bem puxado. Eu fiquei doente na semana que antecedeu a prova e corri tossindo, com sinusite, ridículo. Enfim, as coisas não saíram, nem de longe, como planejamos. Faz parte, bola para frente.
Em 2014 não corremos a prova. Mas a vontade de correr Volta à Ilha nunca passa. E em 2014, eis que a Giovana, doidinha linda, correu sozinha o Desafrio em Urubici, 52km de loucura na subida do morro da igreja e descida, com trilhas. E ganhou na sua categoria, conquistando a vaga. Muita felicidade, mas a vaga era dela, para fazer como quisesse. Só que ela não é assim. Gio é generosa, amiga, parceira. E logo conversou com a equipe "original" para montarmos a nossa, que incluía a Simone (lesionada na outra prova) e mais a Giani, que correu a maratona express conosco. Parecia que ia dar tudo certo dessa vez, faríamos um planejamento que funcionaria. Amanda, Grazi, eu, Rita, Simone, Clenir, Lilian, Giani, Giovana.
Começamos a fazer reuniões da equipe, para conversar sobre a prova, e nos aproximarmos mais, nem todas eram amigas próximas, e sim mulheres com muita, muita vontade de correr com boas companheiras, que fossem competitivas na medida certa, ou seja, aquele tipo  que não estraga a amizade nem a diversão.  Rapidamente, a prova virou desculpa para a gente se encontrar e ser feliz.
E adoramos um improviso. Com emoção é melhor hahahaha.
Alguns meses depois de montar a equipe que parecia quase perfeita, novidade: Giovana engravidou. Nossa, quanta emoção, e em seguida: ops, e agora? Na reunião com o anúncio da gravidez (descoberta depois da Gio correr Mountain Do em dupla, e a meia maratona de Pomerode), já tínhamos que pensar em nomes. Era a Gio que decidia, mas mais uma vez ela ouviu o grupo, e chegamos à Karina. Eu a conhecia muito pouco, mas amiga da minha amiga, sabe como é, gente boa provavelmente. E como! Alto astral, pronta para tudo! Convite feito, convite não aceito de cara. Ai que medo, ela ficou pensando, pensando...mas somos irresistíveis, eu acho.
Algum tempo depois, outra baixa, Giani nos deixou por motivos particulares. Tudo bem, ainda dá tempo de pensar em alguém. Dessa vez eu e a Simone (mais ela) tínhamos o nome: Bruna Lenzi. Guerreira, top das galáxias que faz ultramaratona com menos de trinta anos de idade e cabelo de Pocahontas. Fez Corupá, 80km, por exemplo. E ela, junto com a Si e a Grazi, tinham corrido Volta à Ilha de São Francisco em trio, uma coisa linda. Concluímos que a Bruna tinha tudo a ver conosco, e tem mesmo!
Lesionei em outubro, fiquei sem correr até final de dezembro. Nada como ter um objetivo: precisava recuperar até volta à ilha.
Amanda não tinha  voltado aos treinos "sérios" ainda, já não tinha tanto tempo, mas foi vencendo, dia após dia, e com filha pequena, sabemos que não é fácil. Você tem que decidir correr quando poderia descansar, finalmente. E eu sempre soube que na hora certa, ela despertaria.
Mais encontros, vinho, comida de maromba, amigo secreto da onça no Natal, risadas, risadas, risadas. Gio planejando tudo, porque continuava coordenadora da equipe e seria a motorista. A essas alturas, a inscrição próxima, tínhamos que começar a fechar os trechos.
E algum tempo depois, nova baixa: Lilian saiu da equipe, não estava feliz treinando corrida. E foi muito bom que ela tenha percebido isso a tempo, porque volta à ilha sem alegria, não dá. É muito todo mundo junto ao mesmo tempo agora.
E Giovana fez o anuncio: não chamaríamos ninguém, éramos 8 e ela seria a corredora reserva. Grávida? sim, porque ela nunca parou de treinar, nem de correr, e estava ótima. Mais emoção, né? corredora grávida não é para todo mundo.
Melhorei da lesão, estabelecemos os trechos, em fevereiro Bruna fez Corupá e foi para o pódio, E então  Rita lesionou. Grazi caiu no chão e se ralou. Simone caiu no chão e se ralou. Karina viajou e ficou muitos dias fora, com pouco treino. Credoooooo!!!
O negócio é que fomos nos fortalecendo como grupo. Mais do que corredoras de equipe, fomos nos tornando cada vez mais amigas, e com apoio em todas as áreas da vida (porque mulher é assim, quando ama, participa de tudo - ou se mete), cada vez mais nos sentíamos prontas para correr, mesmo que isso não fosse exatamente verdade para todas do grupo.
A escolha do nome do grupo foi em uma brincadeira com hashtags, mas essa parte melhor não contar. O fato é que adoramos a palavra sublimáticas e seu som, e sublimáticas da volta pareceu perfeito. Sublimática não vem de sublime, não está nem de longe ligada a coisas espetaculares, o que deixa tudo mais interessante.
Com todas se apoiando nos treinos, mesmo pequenos, e  nos falando mil vezes por dia, quanto mais perto chegava a prova, apesar do nervosismo, vai dando aquele frio gostoso na barriga, e a vontade de correr aumenta.
Trechos fechados, bora organizar a logística, Amanda e Gio no comando, a gente só achando lindo, e cada uma com sua função. Minha mãe linda cedeu a casa de praia para as meninas, o que facilitou muito, e a essas alturas, era difícil mesmo ficarmos longe estando tão perto da prova, sempre havia algo a preparar e a dizer.
Sinceramente, não teve fácil, sabem? Foi suadinho, todas tiveram seus problemas e questionamentos durante o percurso de preparação desde junho do ano passado até abril, e acho que ser uma equipe, com compromisso de fazer cada uma o seu melhor, fez toda a diferença, pelo apoio incondicional recíproco. 
O que eu acho sensacional é a nossa normalidade...kkkk. Não, não somos exatamente convencionais, mas todas temos outras ocupações, e uma vida ocupada, mas damos um jeito. Ninguém vive disso, e na verdade é nosso trabalho que permite que a gente corra. Também não deixamos de beber nosso vinho sagrado quando nos encontramos, e temos uma vida beeeem normal, na qual damos um jeito de encaixar o treino. Treino bom é treino feito, certo? 
E chegamos ao dia. É a coroação de tudo. Jantar pré, café da manhã (by Simone), almoço da prova em marmitinhas (by me), lanchinhos (by Rita, Bru), bebidas (by Gio), e motoras top a postos: Walter, namorado da grávida, experiente na função, e também em ter ouvidos de mercador para tanta bobagem feminina no mesmo dia, sem reclamar, e Everton, coach, negão, marido da Amanda, experiente em Volta à Ilha, e bota experiente nisso. Sem eles, não teríamos como fazer nada dar certo.
O combinado foi cada uma correr seus trechos demarcados, para os quais temos pulseiras identificadoras, e a Gio, como corredora reserva, correr o último trecho e fechar a prova. Sempre que penso nisso meus olhos ficam úmidos, porque nada me preparou para isso, por mais que imaginasse. Já fechei a prova, é emocionante demais (está no post...). Claro, se ela não estivesse bem, não correria, e se ficasse mal durante, caminharia. Mas essa parte do plano original passou a ser a mais importante, na verdade.
Deu tudo certo durante a prova. As que estavam bem preparadas, corresponderam à boa preparação: Simone, Clenir, Bruna, Grazi,  em um nível elevadíssimo. Como meus trechos eram de praia, como combinamos, fiz o melhor possível e mantive um pace bom para areia, fiquei super feliz. Rita, com sua memória muscular admirável, correu como sempre e como nunca. Karina se superou, pace muito inferior ao que eu tenho certeza de que ela imaginaria conseguir.  E Amanda? ah, Amanda is back, com toda sua força e potência, mesmo com febre e dores pela sua condição de mãe em desmame. Gio acompanhando, levando suprimentos, esperando...
O dia estava lindo demais, um sol espetacular, paisagem de filme de Fellini em Floripa. O mar estava azul e lindo em todas as praias, não soprou vento forte de lugar algum, o que aumentou o calor, era dia de quase verão. Sofrido para correr, mas eu, por exemplo, já vinha treinando em horários ruins há tempos (não só pelo planejamento, mas em geral porque era o que tinha para o dia).
Simone fez a trilha do demonio da Praia Brava ao meio dia, um horror, fiquei super preocupada, mas ela foi ótima (foi sim, Si). Clenir desfilando, né? básico. Grazi com os bofes para fora. Básico também.  
Dia lindo de sol em Floripa, engarrafamento nos caminhos das praias, especialmente para a lagoa e região. Dureza chegar na Joaquina com o carro. Fiz um pace bem melhor do que esperava no trecho até Campeche, e quando cheguei, a Amanda não tinha conseguido chegar ainda.  Ela e metade do povo, mas isso para a organização, pouco importa. Ouvir aquele "equipe 96, no aguardo" é de chorar. De verdade. Quando ela chegou, 5 minutos depois, eu já estava pronta para sair correndo, mas o combinado era esperar sempre, então eu esperaria. Depois que ela largou, fui obrigada a entrar no mar. Gelado? não senti. Só o alívio da missão cumprida.
Bruna fez o morro do Sertão, tão temido, com um pé nas costas, sério. Ela é muito phods.
E então chegou a vez da Gio, que esperou o dia todo para correr. E lá foi ela, em ritmo de fuga, e não passeio. Simone acompanhou, até porque o trecho é bem deserto. Se bem que este ano, como tudo atrasou, o último posto de troca estava lotado quando estávamos lá esperando.
Eu, Rita e Karina, fomos para perto da ponte para correr junto dali em diante. A essas alturas, eu e a Rita já tínhamos bebido espumante, dormido, eu tomei um caldo de cana e estava pronta para começar tudo de novo (sqn).
Corremos as 5 da ponte até perto da chegada, Gio no ritmo, sem conversa, a gente querendo que ela exibisse a barriga, ela com vergonha, mas ainda assim todo mundo fica olhando, grávida é um ser de outro planeta kkkk. Tá, talvez correndo daquele jeito seja mesmo.
Quase na chegada, ouvi um "que bom estar aqui com voces", olhei para o lado e era a Clenir, Kena muito feliz, como fazia tempo que eu não via. E dali em diante fomos todas correndo, Grazi sem unha, nós numa alegria que não cabia no coração (e por isso estou chorando agora), até a chegada, com nossa musa conduzindo, e o negócio é que eu, que falo tanto, não encontro palavras suficientes para descrever o sentimento da chegada desta equipe que tive a honra de integrar. O que eu lembro é dos nossos olhares se cruzando, nós abraçando a Gio e a barriga de Paola, a maravilhosa sensação de ter feito o melhor com as melhores, aquele amor de irmãs que invade o corpo todo na hora em que realmente a gente percebe que acabou.
Agora somos sublimáticas, com uniforme e tudo, com staff (pobres meninos), com mascotes, com herdeiros, com algo que nos une e que é difícil de romper. Só tenho a agradecer, como fui fazendo ao longo de todos esses meses e enquanto corria em Floripa, me sentindo tão abençoada e privilegiada por estar nesse grupo de fodásticas, como disse Bruna. Juntas somos mais fortes. Amo vocês (e choro de novo hahaha).