sábado, 6 de fevereiro de 2016

E se...?

     Não sei vocês, mas eu já me peguei várias vezes pensando: e se eu tivesse descoberto a corrida mais cedo? Ou seja, quando eu era mais jovem? O que teria sido diferente? Eu seria melhor? Digo, beeeem melhor?
     Comecei a correr com quase trinta anos, quando morava em Brasília, super de leve, e nem imaginava participar de provas. Aliás, eu nem sabia como eram as provas, distâncias, etc. Só corria para aliviar a tensão de estudar e trabalhar, complementando a natação.
     Antes de engravidar, eu participei de uma prova, morava em Blumenau há pouco tempo,  o pessoal da Academia Master ia, era a Meia do Bela Vista, que eu fui, naturalmente, fazer a prova de inverno de 6km. Gostei, fui bem, mas na época não conhecia quase ninguém na área, e não me animei tanto.
     Depois que voltei a correr no pós parto, inicialmente para emagrecer, é que tomei gosto por esse negócio de prova de corrida de rua. Devo muito ao coach Everton (isso e muitas outras coisas legais relacionadas à atividade física), que começou a me empolgar e me ofereceu a chance na Volta à Ilha, além de acreditar que eu podia fazer uma meia maratona e me treinar para isso. Dali em diante todo mundo que me acompanha sabe o que aconteceu.
    Mas como sempre gostei de dar o meu melhor, de treinar duro, de levar a sério, e sim, sou competitiva (já fui mais), às vezes fico tensa com a ideia de envelhecer na corrida. Dificilmente posso evoluir muuuuito mais, em termos de rendimento, pelo menos me comparando com corredoras em geral que estão se dedicando e tem dez anos a menos do que eu. 
    Corro de uma maneira que possa ser competitiva, mas também que eu possa correr para sempre. Não me interessa uma curta carreira de alto rendimento, comecei tarde, seria curta mesmo. Rapidamente tive que escolher entre isso e ser uma atleta mediana (dentro do meu conceito)  por muitos anos. Só que eu quero evoluir. Ou pelo menos não perder rendimento já. 
    Uma vez eu li uma matéria que falava que depois dos 30 era ladeira abaixo, só decadência. Opa! Mas também dizia que isso não se aplicava a quem começou mais tarde. Óbvio, né? ninguém começa e piora nos meses seguintes. Você tem um ciclo e um pico. 
    E foi aí que comecei a pensar. Quem começa cedo terá o pico quando? e depois, consegue manter, ou pelo menos decair com charme, fazendo o médio de forma digna, ou é ladeira abaixo e brigadeiro para dentro?
     Eu nunca fiquei sem praticar atividade física na minha vida. Mas durante a faculdade eu sempre trabalhei, e por um bom tempo fazia dois cursos simultaneamente, então não sobrava muito tempo. No tempo que sobrava no final de semana, eu saía. Ia para a night porque naquele tempo não existia a palavra balada. E era bom, sabe? Li a Paula (Correpaula) falando que não inveja quem sai à noite. Nem eu, mas porque eu saí para caramba. E não me arrependo. Eu sempre adorei dançar, e dançava muito. Sempre procurei lugares para dançar. Quem é de Floripa ia na Chandon, e era sensacional. Foram muitas boas festas e saídas, Clube 12, Arataca e seu teto que ia despencar a qualquer momento, noites e noites de carnaval até a banda encerrar as atividades no clube...nossa, era muito bom.
     Se eu fosse atleta, não teria feito nada disso. Quem eu conhecia que era atleta na época, levando a sério (não corrida de rua, isso levou muito tempo para aparecer como algo popular), era predominantemente na natação. E realmente esse pessoal não saía à noite quase nunca. Eram super dedicados, como tem que ser. Eu estudei com o Fernando Scherer, e ele tinha uma vida bem diferente da minha fora da escola. 
Eu poderia ter sido boa, até porque na época tinha menos concorrência...mas teria que sacrificar alguma coisa, e não seria nem estudo nem trabalho. Teria que trocar uma diversão noturna por uma diversão diurna e com mais disciplina. E como eu me conheço, eu trocaria, e seria mega disciplinada.
     E aí está o ponto: será que eu ficaria nessa por bastante tempo? será que eu seria boa o suficiente para me destacar? e para não me arrepender, nem querer fazer outra coisa? 
Será que eu não ia ter momentos de tristeza de ver o pessoal saindo e eu dormindo cedo para treinar no dia seguinte? ou será que eu teria outros amigos, que também fariam isso? Com 16, 18, 23, o que é mais legal? 
     Então, como já concluí em outros assuntos, penso que tudo acontece na hora certa, e do jeito que tem que ser. Tenho a sensação de que se eu fosse atleta, seja de corrida, ou de natação, quando eu estava nos meus vinte, eu hoje não teria a empolgação que tenho, porque os desafios já teriam sido superados (ou não), e o alto rendimento teria chegado e passado (ou não). De toda sorte, eu estaria cansada de treinar tão duro como é necessário, eu acho. Ou não, como diz Caetano.
     Será que sendo atleta desde jovem, quando eu engravidasse, teria esse ânimo para voltar? a Juliana. mulher do Marilson teve. Mas ela é ela, né? índice olímpico e trofeu em panamericano. Sei que não tenho esse talento. A Clenir tem.  Eu talvez jogasse a toalha usando a gravidez como desculpa, e só quisesse puxar ferro. Com sorte. 
     Pensei também nos meus amigos. Eu não troco os amigos que tive e tenho até hoje da época de colégio e faculdade, embora quase nenhum deles corra. Alguns fazem exercícios com vontade, outros começaram a correr depois de mim, e muitos outros só levantam copo de cerveja. Mas o que temos é antigo, laços de uma época importante. Também teve gente que passou pela minha vida como amigo da night, e nunca mais ouvi falar kkkk. 
   Nesse raciocínio, se eu tivesse sido atleta na primeira juventude (sim, estou na segunda), será que teria conhecido as sublimáticas? Amanda, Rita, Grazi, Giovana, Cris, Bruna, Karina, Clenir, Lilian (considero), cada uma no seu momento de vida especial, reunidas pela corrida, unidas pela amizade. Não poderia ser melhor! 
   Estimulei tanta gente a correr (ou talvez deva dizer que botei para correr?), e acho que deu certo com várias pessoas porque eu já não era tão novinha, e mostrei que é possível em qualquer idade. A corrida deixou minha amizade com a Simone ainda melhor! Será que há quinze anos isso teria acontecido? acho pouco provável.
    Evoluí bastante nos primeiros anos de corrida, e é bem provável que já tenha tido meu pico, tive a lesão, dei uma travada, estou ainda no meio do novo caminho traçado, e tenho plena consciência de que manter o rendimento quer dizer  disputar dentro da categoria.       Para isso tenho que treinar muito bem treinadinha, não dá para aliviar, porque não vai ficar mais fácil a cada ano. Sou o reflexo de tudo o que faço, não só do treino. 
   Claro que chegar na frente das meninas que tem menos de trinta é ótimo, muito ótimo na verdade. Dos meninos, então...Mas tenho que dar  um desconto, provavelmente eles saíram na noite anterior, estão na fé. E sou ultrapassada por muita gente com mais de 50 anos, que podem correr há trinta anos, ou há 5...e por isso a corrida é tão democrática.
   Eu já sou multitarefas atualmente, então é só encaixar o treino adequadamente (não, não é fácil). Não consigo sair à noite frequentemente nem que queira, porque tenho que ter disposição e babá. Além disso, só tem graça dançar até às 5h se puder dormir até às 11h do dia seguinte, e isso não me pertence. Dormir é fácil para quem está sempre cansada, o sono vem logo. De manhã adoro estar pronta para correr e ter o meu momento antes de começar o trabalho que me remunera, e o gratuito que não termina, em casa, de mãe, esposa...que também adoro. 
   Em resumo,  a corrida se encaixa muito mais na pessoa que eu sou hoje do que na que eu era há vinte anos. E isso é maravilhoso. Então, em vez de pensar como teria sido, o negócio é pensar em como pode ser. Quer começar a correr? a hora é agora!!