segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Da série Coisas que a Corrida faz por Você: Mountain Do Lagoa 2016

Aconteceu comigo este ano algo muito diferente, uma surpresa para mim: fui convidada para integrar um quarteto misto para correr o Mountain Do da Lagoa, uma das provas mais lindas e com melhor astral que conheço. Ou seja, convite para ser a menina do quarteto, porque em quarteto misto competitivo só tem uma menina, que, em geral, corre muito bem. Assim que fui convidada essa parte não foi bem esclarecida, mas com o passar do tempo vim a descobrir que era essa a intenção, que eu fosse forte também porque o quarteto era forte. 
Num primeiro momento, fiquei realmente lisonjeada, por ter sido lembrada pela professora Edna, da natação, como alguém que poderia fazer parte do grupo dos fortes. Depois acordei para a vida e veio o desespero. Minha velha síndrome da impostora (sou uma fraude). Avisei então que não era isso tudo na corrida, só esforçada, tanto que fui rebaixada para o segundo quarteto, o que era mais modesto quanto ao pódio, isto é, menos pressão, embora altamente competitivo, tipo aqueles que correm por fora na disputa. Assim, foi muito incrível me sentir corredora de elite sendo convidada para o grupo hahahahaha. 
Foi a terceira vez na vida que havia pressão numa prova de equipe. A primeira foi uma Maratona Express e a outra foi no Divas Venezianas, ambas para conquistar vaga no Volta à Ilha.
Mas agora era totalmente diferente, já que eu não conhecia a equipe. Na verdade, ninguém do quarteto. Corajosos, eles, né?
Fui adicionada ao grupo de whatts com todos os atletas, a maioria vinda da academia Estação Azul, de Itajaí, muitos profissionais de educação física e era um pessoal bem animado para treinar. E de sangue nos olhos também. Eles postavam os treinos e era algo  impressionante. 
Foram combinados muitos treinos, todos voltados ao tipo de prova que é o MD: aventura, areia, subida, ralação. Eu não pude ir a NENHUM. Show, parceiraça eu. Mas realmente não dava certo, os horários não batiam. Os sábados marcados foram em dias de aula na pós, e os domingos quando eu estava em outro lugar, Floripa ou Blumenau, troço  impressionante. 
Fui fazendo meus treinos, e nem sabia quais seriam os trechos, então caprichei na subida da Rainha, corrida na areia, o que dava na região. Não consegui nem ir a Taquaras para dar aquela forçada. 
E o povo correndo e confraternizando...Depois descobri que além de mim, mais uns dois ou três não foram em nada também. Ufa. 
Isso porque o Team V8 Praia Brava era composto de 4 equipes, sendo três quartetos e um octeto, este feminino. Uma galera, mais o staff, com camiseta de patrocinador e tudo, bem diferente do que estou acostumada.
E eu só postando meus treinos no grupo para eles saberem que eu estava treinando, não era uma mentira. No meio disso, veio uma canelite ruinzinha, diagnosticada em ressonância, com dor , que me fez reduzir o volume de treino semanal consideravelmente, mas felizmente não precisei parar, fui fazendo fortalecimento da panturrilha, liberação, alongamento, gelo, tudo o que era possível, e segurando a vontade louca de sair correndo. Cumpri aquela planilha com treinos toscos de 3km leves...mas melhor assim e poder voltar. Avisei ao quarteto, para  saberem que a menos de um mês da prova eu não estava 100%, ou seja, não daria tempo de estar no nível que gostaria. Fiquei triste por tudo, inclusive pelo MD mas não só, porque eu realmente venho evoluindo e estava chegando onde queria nos meus tempos de 10km. E uma lesão é balde de água fria, sempre um recomeço. 
Enfim, fizeram a reunião definitiva (que eu não pude estar) e escolheram os meus trechos, que eu aceitaria mesmo que fossem os piores, porque quem não participa não tem direito a opinião. Mas até achei bons para os meus treinos, eram o 4 e o 5, com bosque e areia, praticamente, totalizando pouco mais de 12km. Só que fazendo os dois juntos, dobrando, a moleza não é tão grande. 
Como não bastasse, eu estou envolvida com o próximo treino Mulheres que Correm (esperando as meninas em Blu dia 02),  mais o trabalho dobrado porque estou sozinha na Unidade Judiciária com o colega em férias, e ainda as aulas na pós, então demorei para ligar o modo on do Mountain Do. Só ia treinando como dava e pensando que no final dá tudo certo (porque dá).
Mas quando foi chegando mais perto, eu, com essa minha necessidade de comunicação e integração com as pessoas (quase uma doença), criei o grupo no whatts do nosso quarteto, para pelo menos conversarmos só nós. Foi ótimo. O Fabiano logo entrou na minha de compartilhar (acho que ele também gosta de um papo). O Felipe também foi contando como ia fazer, só o Gabriel que se manifestou pouco. Tão pouco que dois dias antes da prova ele saiu do grupo porque não poderia ir no dia da prova. Emocionalmente não fiquei abalada porque eu só tinha visto a foto dele, mas como corredora acelerei os batimentos. Como assim, perder o corredor na semana da prova?
Mas, como convidada que era, realmente o problema não era meu, tanto que foi resolvido sem mim kkkk. Minha função era definitivamente só ir correr. Foi alterado o outro quarteto, e um dos corredores deles veio para nós, o Xilipoca (oi? sim, sim, mas para a mãe dele é o Felipe). Logo percebi que ele era animado também. 
Então o Fabiano disse que não tínhamos carro para deslocamento na prova, nem apoio. Daí deu um apavoro.
Uma das muitas lições que aprendi na corrida é que, em prova de equipe, tão importante quanto correr bem é ter uma boa logistica. A equipe não é só composta por quem corre, precisamos de staff. Basicamente em todas as vezes que corri Volta à Ilha, alguém não conseguiu chegar antes do colega que fazia o trecho, que, depois de se matar correndo, tinha que esperar o parceiro. Isso porque nós sempre tentamos fazer a melhor logística possível,  temos motoristas incríveis (e praticamente surdo-mudos, como o Walter, marido da Gio, que escuta cada coisa...), mas tem o trânsito, o dia de sol, Floripa, muitas variáveis. 
Também o Fabiano (eu acho) resolveu isso, A Helenita (que eu não conhecia também) cedeu o carro dela, e apareceu um anjo motorista, o Angelo. 
Depois dessa semana cheia de emoções, combinamos de eu ir com eles para Floripa na sexta-feira.  
Dali em diante eu entrei em um novo grupo, com teoricamente desconhecidos. E aí vem mais algo incrível da corrida. Você conhece pessoas que são muito diferentes de você, mas graças à democracia que a corrida tem, todo mundo se entende rapidamente. 
Que pessoal gente boa!!! Sou muuuuito sortuda. Conheci a Simone, a Vanessa, a Lari, a Helenita, o monstro da corrida Chico e sua querida esposa Suely, pessoas que me receberam como se me conhecessem por toda uma vida! Gente que gosta de correr, mas especialmente gosta de viver com a corrida na sua vida! E em menos de 12 horas, você parece conhecer aquele povo há séculos! Só a corrida proporciona momentos assim. 
Choveu a semana toda, mas eu sabia (mais uma vez) que no sábado não choveria, não importava o que a previsão dissesse. Deu sol. Um dia delicioso alternando sol e nuvens, para a gente não morrer de calor direto. 
O Angelo foi o nosso apoio de carro, motorista, psicólogo, incentivador. Meu quarteto era fora de série, Felipe, Xili e Fabiano, guris que correm com muita determinação e me receberam com compreensão, logo sacando o poço de ansiedade em que eu me encontrava. 
Ah, e a corrida?  Então, dobrei o 4 e o 5. Isoladamente, 6km cada um, sem altimetria, seriam tranquilos. O 4 é do bosque, com areia de praia inicialmente e depois praia do Moçambique. O 5 pega estrada de areia, depois duna e um riozinho para "molhar o pé" no final. 
Mas o cérebro da gente não é bobo. Então meu corpo estava com a programação de 12km, e não de 6+ 6. E isso já muda tudo. Você sai para fazer 6km com uma velocidade, e para fazer 12km, com outra. Não podia quebrar antes de chegar no trecho 5. O bosque, que eu acho um lugar bacana para correr, tem as melhores fotos, estava com todas as pinhas no chão. TODAS. Prontinhas para receber pés para virar. Tive que tomar mais cuidado. Pensei comigo que segurar no bosque para soltar na praia era uma boa. Errrrrrrroooouuuuu. A areia do Moçambique estava movediça. Aqueles 2km não passavam. Tinha vento contra, e o pé afundava no que era areia de mar. Só não chorei porque  percebi que todo mundo estava na mesma, era uma corrida em fila indiana, não mudaram quase as posições. Ninguém me ultrapassou, e eu só ultrapassei os insanes (que fazem sozinhos os 65km, então em geral o ritmo é menor). Acabando essa belezura, tinha uma areia fofa que eu já estava amando, e então iniciava o 5. Na praia também pensei que ia tirar o atraso na estrada que viria (uma areia batida), mas aquela praia me cansou, demorei para encaixar o ritmo, e meu sonho de fazer em 1h05 me abandonou sem dó. 
Depois tinha a duna, pequena, e que normalmente eu acharia divertida, mas no final já não é tão interessante, e o riozinho...sim, um riozinho para molhar os pés, como diz a descrição do percurso. Na verdade, por causa da chuva, a água vinha até o joelho, então correr não era opção. Geladaaaaaa a água. Ai, que legal, refresca...ha ha ha. Saindo da água, os pés, já no fim, pesavam toneladas!. Mas realmente era o fim, e terminei em 1h13 alto. Não fiquei nada feliz, fui para o carro pedindo desculpas e realmente chateada. Mas depois, conversando com outras pessoas, lembrei o básico de prova de aventura: o teu pace é bom ou ruim considerando o dos outros no mesmo trecho, e não a sua expectativa e a realidade. 
Comparar os 12km (deu menos) do MD com meu treino de 12km na orla de BC, que fiz em 1h01min, é injusto e uma burrice. Eu esperava ter ido melhor, verdade, e acho que uns 3 minutos a menos poderia ter feito, mas não muito melhor do que isso, e isso não renderia um trofeu. Não este ano, com aquela praia. E comparando com os outros, percebo que cochilei mesmo no 4, devia ter forçado mais, fiquei com medo de quebrar e não aproveitei o que tinha de espaço para soltar. Os meninos foram  muito bem, fiquei realmente honrada em ter participado do grupo. 
Ficam, como sempre, as experiências e alegrias das companhias no carro, nos postos de troca enquanto a gente espera o companheiro, da largada e chegada, aquela ansiedade gostosa de prova assim, e todo mundo que conheci.  
Nosso quarteto fechou em 9 lugar, eu achei lindo demais, um feito incrível para mim, eram 26 quartetos mistos. Claro que já terminei pensando em estrategia para o próximo ano, acho que teria rendido melhor se não fosse dobrado o trecho, e sim algo como o 1 e o 5. Mas se fosse eles, procurava uma mais caruda e menos medrosa para ser a menina do grupo...
Essa foi a última prova de aventura do ano, agora só asfalto e areia. Esse tipo de prova, para eu curtir, tem que ser bem especial. Já sei que não adianta fazer MD Costão do Santinho, por exemplo, porque não curti, mas  da Praia do Rosa foi a melhor em muitos anos. Se eu fizer muitas dessas, me irrito. Agora bora treinar velocidade e força de novo, que os desafios do ano não acabaram. 
E dia 2 de novembro tem treino lindo Mulheres que Correm em Blumenau. As inscrições terminaram muito rápido! Estamos preparando uma manhã muito especial para todas. Ainda vou falar sobre isso aqui.
Chega que ficou imenso, bons treinos!!