O que leva uma pessoa a correr uma maratona? "Qualé" da maratona, afinal?

Então. Não sei, porque nunca corri, e ainda não tive vontade. Acho muito puxados os treinos, o tempo é curto e tem que manter as outras atividades para não se quebrar, e não sou muito paciente para longas distâncias. O que não me impedirá de mudar de ideia um dia, naturalmente... 
Por outro lado, sempre tive curiosidade em saber o que faz uma pessoa correr sua primeira maratona, o que ela sente, e o que faz correr a segunda, a terceira, e seguir treinando para fazer maratonas. Ou ultramaratanas, gente doida!
Minha primeira leitura foi, na verdade, O que Eu Falo Quando Falo de Corrida, do Haruki Marukami, um escritor japonês que tem várias obras de ficção que adoro, e esse livro sobre corrida,que é sobre ele mesmo e a corrida na vida dele. O máximo. recomendo. 
Depois fui para o espetacular Draúzio Varella, com o livro Correr. Na verdade, lendo a obra com atenção, você não se sente nem um pouco estimulado a correr uma maratona, porque ele narra, sem filtro, os sentimentos e consequências de uma prova dessas. Tem muita dor de barriga, muito estresse, muitas dúvidas. Para terem ideia, na palestra dele, lá pelas tantas, ele diz: "sou uma daquelas pessoas retardadas que corre maratona". 
No livro aprendi muito sobre corrida, sobre limites, sobre idade como algo não impeditivo, força de vontade e disciplina, porque ele decidiu correr quando ia fazer 50 anos e um amigo disse que, dali em diante, só "ladeira abaixo", e isso mexeu com os brios, digamos assim. E ele foi correr maratona!!
Disse ele: "Decidi correr a Maratona de NY, em novembro do ano seguinte. Quem consegue correr 42km deve ser capaz de enfrentar o futuro com mais otimismo e sabedoria, pensei." (p. 17).
Bom, aqui vai ser o seguinte. Programei uma série de posts sobre maratona. Neste primeiro vou passar alguns trechos do livro do Dráuzio, quem já leu, me desculpe, mas é tudo tão legal que quero compartilhar com quem não leu. Continuo recomendando a leitura da obra, porque ele correu Boston, Rio de Janeiro,  até Blumenau, e faz tempo! Dali em diante vou compartilhar entrevistas que fiz com 4 pessoas, para representar quatro perfis: uma estreante, para falar de sua primeira maratona, uma corredora profissional, mas que nem sempre foi maratonista, uma corredora que virou veterana em maratonas, e uma pessoa que ultrapassou os limites e foi ser ultramaratonista. Nada melhor do que a opinião de quem já fez, não é mesmo?
Espero que vocês gostem. Eu me emocionei com as respostas.
O que é um maratonista, para começar? Maratonista é todo aquele que completou uma prova de 42km e se prepara para correr a próxima. Correr maratona não é para quem quer;há requisitos genéticos fundamentais. Os corredores de elite costumam ter biótipos padronizados: são magros, com menos de 1,80, corpo esguio e musculatura alongada". (p. 76 - ix para mim)
Mas há esperança: "Os que correm por diletantismo não precisam ter tais características, mas ajuda muito se tiverem. Nas maratonas, já cruzei com homens altos, entroncados, com pernas grossas e musculatura achatada, que deviam pesar cem quilos ou mais, no entanto eram capazes de completar a prova em menos de quatro horas. Conheci um com essas particularidades físicas que dizia: 'Duvidam que eu seja maratonista por causa do meu corpo, mas quando você analisa a aerodinâmica de um besouro, dá para imaginar que um bicho daqueles seja capaz de voar'" (p. 76 -adorei)
Sobre maratona, por Dráuzio: "maratonas são provas para pessoas disciplinadas capazes de percorrer distâncias longas com regularidade na fase de preparação. O estresse que os treinamentos e os 42km da prova impõem provoca alterações metabólicas e modifica a fisiologia do organismo" (P. 115)
Sobre sanidade mental de quem corre maratona: "A mesma desconfiança a respeito da sanidade mental foi demonstrada pelos amigos, quando souberam. Lamentavam a falta de discernimento, riam, pediam que contasse outra piada, diziam que eu morreria no percurso e que cinquenta anos era idade precoce para as primeiras manifestações do mal de Alzheimer, reações previsíveis numa época em que quase ninguém no Brasil praticava corrida com regularidade. Correr nas ruas chamava a atenção dos transeuntes, alguns dos quais faziam comentários jocosos ou cara de assustados". (p. 19 - ele tem 74 anos agora, então isso faz mais de 20 anos!! Quanta mudança!).
Depois que começou a treinar, percepções: "O ganho mais surpreendente, porém, veio do lado psicológico. A sensação de paz  que se instalava no fim das corridas deixava rastros pelo resto do dia. Já no banho da manhã, quando eu pensava nos compromissos que me aguardavam, tinha certeza de que seria capaz de cumpri-los. Consegui controlar melhor a ansiedade e e agitação da vida atribulada que sempre levei, tornei-me mais confiante e disciplinado. Ganhei serenidade" (p. 21 - quem mais se identificou?)
Nem tudo são flores - adoro esta parte: "Por outro lado, senti na carne o tormento que é levantar da cama de madrugada para correr. Passados mais de vinte anos, meu primeiro quilômetro ainda é dominado por um único pensamento: não há o que justifique um homem passar pelo que estou passando. Existe sofrimento mais atroz do que deixar a cama quente, no horário em que o sono é mais arrebatador, vestir o calção, a camiseta e calçar o tênis para sair correndo" (p. 21 - não vou transcrever a página seguinte, mas recomendo!)
Bom, ele corria sem planilha, e meio que testando os limites. Por uma época quis realmente testar velocidade, a um mês da prova-alvo. Boa ideia, né? Sqn, naturalmente. Mas é bom saber que não sou só eu que faço besteira: "Sofrer uma lesão por acidente é uma coisa, por estupidez é outra, muito mais frustrante. O idiota precisava forçar com aquela intensidade, um mês antes da prova? Essa recriminação não me saiu da cabeça durante os três ou quatro dias longe das pistas, à espera de uma melhora " (p. 24)
Sobre os maratonistas: "Podemos identificar três tipos gerais de maratonistas. Os profissionais que disputam as primeiras posições, os que se deixam tomar pelo desafio constante de melhorar marcas anteriores, e os diletantes, que se contentam em completar a prova" (p. 63 - quem já correu e quer me dizer qual tipo é, entre o segundo e o terceiro, claro?)
Sentimentos do maratonista: "Esse misto de medo, excitação e emotividade não é exclusivo dos navegadores de primeiro viagem. Em maior ou menor intensidade, todo maratonista experimenta tal estado de espírito nos minutos que antecedem a partida. Comigo aconteceu em todas as provas de que participei nos últimos 22 anos. Acho que, no íntimo, temos consciência de que correr os 42km talvez ponha a vida em perigo, e é essa possibilidade que excita e amedronta". (p. 73).
Dá para fazer de qualquer jeito? "Maratonas são provas para bons planejadores, capazes de a todos instante calcular a energia gasta e avaliar a que ainda resta para chegar ao final. É uma prova democrática que exige de todos a mesma sabedoria. Do primeiro ao último colocado, cada qual testará o limite de suas forças. Um pequeno erro no cálculo da velocidade dos quilômetros inicias pode levar à marca de um temo medíocre ou à exaustão paralisante, na metade do caminho" (p. 73)
Sobre atividade física e a corrida: "Se formos pensar nos benefícios à saúde, nem precisaria tanto: bastaria andar trinta minutos por dia. Mas a questão não é essa. Quem descobre a sensação de bem-estar e a euforia que a corrida traz não se contenta em caminhar. Corredores obrigados a encerrar a carreira por causa de lesões articulares só faltam chorar de nostalgia quando falam do passado" (p. 198 - quem começa a correr, não anda mais...).
Para encerrar, na palestra ele falou algo que desenvolveu no livro: corre maratonas porque exigem realmente disciplina nos treinos. E aí diz o seguinte no livro: "A preparação para provas mais curtas pode ser improvisada em duas ou três semanas; para maratonas, jamais. Ninguém completa 42km com meia dúzia de treinos. A vantagem da maratona é exigir a disciplina que me obriga a sair da cama às cinco da manhã, faça frio ou esteja escuro. Sem essa premência acabo relaxando e deixando para o dia de são nunca, como tanta gente faz. Num piscar de olhos acumulo gordura no abdômen e paro de correr." (idem). 
Então, se você não está a fim da maratona, ou não dispõe do tempo, ou qualquer outra coisa, vai ter que encontrar disciplina dentro de você  para distâncias menores. O tcham é descobrir o que te move. Por isso sempre falo da importância de ter uma meta  Eu gosto de provas, como sabem. Pra quem não gosta, buscar uma meta interna, como manter o peso, emagrecer, se superar, mostrar que consegue, tudo vale para você lembrar que, pode dar preguiça de começar, mas sempre que você termina de correr está mais feliz do que antes. 
Aguardem meus convidados!!!


Comentários

  1. Andrea, adorei ler teu post. Principalmente porque estou me preparando para minha primeira maratona (Floripa, 27.08). Também amo o livro do Dr Drauzio Varella e confesso que ele me fez lembrar de uma vontade antiga: saber como é correr uma maratona. Estou ansiosa para ler os depoimentos de teus entrevistados. Bjs

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    1. Que legal!! Eu e a Simone vamos revezar esta, estaremos de MQC, vem falar conosco!! Vamos querer celebrar com você tua conquista.

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  2. Valeu pelas referências dos livros.
    Muito boa a resenha. Real em todas as linhas.
    Quando me lesionei - e não foi na corrida - fiquei off por uns 2 anos, eu quase chorava de nostalgia quando lembrava do passado.
    Os relatos de blogs e livros como "Operação Portuga", nos ajudam muito.

    Abraços,
    Marcelo
    www.corramais.blogspot.com.br

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    1. Vou procurar esse livro, Marcelo. Nossa, ficar off é muito triste. Tem que pensar que passa. Vai passar. E passa. Eu vivia no transport. Terminava em lágrimas.

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