O que faz a prova perfeita?

Depois que a gente começa a correr e participar de provas (vocês sabem que eu recomendo sempre participar de provas, é muito estimulante e desafiador), fica observadora quanto ao que é desejável, ao que é importante, e ao que é fundamental nelas. Não estou falando de coisas aleatórias, como a prova acontecer em um dia nem frio nem quente, sem vento ou chuva, e eu estar em um bom dia para correr, etc. Falo da parte de organização para a prova acontecer. 
Nem tudo é importante ou desejável em todo tipo de prova. Por exemplo, largada em ondas, ou organizada por baias, com horários diferenciados pelas distâncias ou paces. Isso é ótimo, mas é coisa de prova grande. Grande mesmo, mais de 5 mil pessoas, pelo menos. Tem também o gosto individual, e a fase da vida de corredor em que se esteja, como vou falar depois. Mas alguns itens são fundamentais.
Vamos começar por necessidade. Banheiro. E olha que não sou a corredora que sempre tem dor de barriga meia hora antes da largada, só às vezes hahahaha. Mas como a gente geralmente vai cedo para o local, pelo menos um xixi básico todo mundo precisa antes do início. Sério, já corri com vontade de ir ao banheiro, bexiga cheia. É a treva, você não consegue se concentrar em outra coisa. E eu admiro, mas não consigo "liberar" durante a corrida, preciso do local adequado. Minimamente adequado.
Os banheiros químicos já não são top das galáxias, e nem teria como. Mas, não bastando isso, precisa regular a quantidade? Será possível que não dá para fazer uma conta de número de pessoas por banheiro para que a coisa seja pelo menos digna? Esperar meia hora em pé numa fila, para depois correr, não é digno. Ponto. Eu sei quanto custa o aluguel de um banheiro químico, e não tem como quebrar o organizador do evento colocar número suficiente. Digo isso porque eu já fui em provas em vários lugares diferentes, e o banheiro é um problema. No Rio, na maratona, eu achei que tinham poucos para o número de inscritos. Na corrida da mulher maravilha, em compensação, o numero de banheiros me chamou a atenção. Sobrava, e eram muitas muitas mulheres. Mas o pior foi na meia maratona de BC e na maratona de Floripa, que no posto de revezamento tinha um para cada gênero. E considerando que sabemos que os homens só vão para o número dois, realmente o banheiro fica só para eles, que ainda não são tão rápidos!
Você ter que se programar para sair ainda mais cedo, e não se aquecer, porque tem que ir para a fila...sinceramente...pouca prática dessas empresas, que arrecadam um bocado com inscrições e têm patrocinadores. 
Papel higiênico é luxo. Sempre levo o meu de casa. Mas eis que, no meio do vale das lamentações, surge a prova do Sesi, Circuito Corridas do Bem, com muitos banheiros, todos com papel, gente recolhendo lixo, e ainda um lugar com várias pias e sabonete líquido para lavar as mãos. Valorizei muuuuito, inclusive porque o valor da inscrição é um dos menores que eu já encontrei!
E aí vamos ao segundo item. Preço x o que oferece. Uma inscrição pode ser cara ou barata absolutamente, ou seja, o valor é alto para você. Mas também tem o caro em relação ao que oferece. As inscrições para o Mountain Do são de valor elevado. Nem sempre posso pagar. Mas a organização é geralmente impecável, em lugares lindos, com farta, fartíssima hidratação e comidinhas e itens pós prova incríveis, além de um kit de primeira. Ou seja, se você tiver dinheiro é um ótimo investimento.
Já  a Volta à Ilha custa uma fortuna em valores absolutos e não te oferece nada, atualmente nem uma expo, e até a camiseta não é boa, porque não é mais patrocinada pela Asics a prova. Ou seja, o preço se justifica provavelmente pelo renome da prova, porque é tudo lindo, e porque é necessária uma grande estrutura para todo o percurso. Pera, o Moutain do Lagoa pega boa parte desse percurso e oferece muito mais...ah, ta. E no caso do Volta à Ilha, a vaga é conquistada em outras provas da organizadora ou mediante sorteio, ou seja, nem adianta só ter o dinheiro da inscrição.
Existem provas baratas com percurso bacana e outras vantagens. Por exemplo? premiação. Considerando que sou uma pessoa competitiva, eu gosto de premiação por categoria, e sempre olho se é de 10 ou 5 anos (a faixa etária para premiar). Acho muito legal provas com 5km e 10km que têm premiação por categoria para as duas distâncias, porque correr 5km rápido não tem nada de fácil! E quando tem premiação, atrai gente mais veloz para a prova. 
Então, para mim, não é fundamental, mas bem interessante ter premiação por categoria. Mas isso é individual. 
Hidratação é fundamental (sim, na Volta à Ilha a organização só oferece em dois trechos, dos mais de 15). A questão é o quanto de hidratação é fundamental: o quanto a empresa organizadora se propuser e prometer. Se diz que vão ser 3 postos, tem  que ter 3 postos com fartura, abundância, não pode acabar. No verão, não pode estar quente a água. E tem que ter bastante no final também, especialmente no verão. 
O problema é dizer que vai ter água e depois não tem. Prometer isotônico e acabar. Isso não pode. 
Para mim, isotônico, só em meia maratona e maratona para cima, naturalmente. 
E o kit? Ah, como é bom abrir a sacolinha e ter um monte de coisas legais, né? gel, descontos, comidinhas, brindes, meias, viseira...eu também adoro. Mas já percebi que o kit pode ser um disfarce para uma prova roubada. Kit não faz prova, dá alegria instantânea. Mas não adianta se a prova não for bem organizada, certo? Já fui mais interessada nos itens do kit, hoje em dia presto atenção neles se a prova tiver uma inscrição muito cara, porque quero saber pelo que estou pagando. No kit da maratona do Rio tinha a camiseta excelente da Olimpikus, patrocinadora, uma viseira ruim, e aí tinha café, um pacote de 500gr, biscoito recheado (hem?)...a inscrição não foi tão cara, e oferecia, para quem pagava à parte, transporte para a largada, fartíssima hidratação, pós treino com muitas arenas, uma super estrutura (na chegada os banheiros eram em enormeeee quantidade), ou seja, vale o que se paga. Já a maratona de Floripa tinha sachês de vinagre. Vinagre? sim, vinagre. Teve suco Frisco também, tipo Tang...o que isso tem a ver com a alimentação de corredores? com prova de corrida?
O Kit da corrida da mulher maravilha era um show à parte, com uniforme quase completo, saia, camiseta, viseira, esmalte...era realmente beeeeem Penélope. A prova já não era tão boa para correr porque o número de mulheres correndo era absurdo, caminhada junto, tudo bem confuso. Nem tudo é perfeito. 
A entrega dos kits também é um item a considerar. Tem prova que eu fico desanimada de fazer porque sei que a retirada do kit será em horário e local péssimo. Fila para retirar é algo administrável e dependendo do caso, esperado, mas às vezes é só desorganização. Entregam camiseta de tamanho errado, pouca gente para atender, local inadequado. O mundo ideal é NY, com uma expo gigantesca, ou na Maratona do Rio, com a expo também ótima, e tudo fácil para retirar o kit. Mas mesmo uma prova pequena tem que ter uma retirada de kits no mínimo atenciosa. 
Para finalizar os kits, tenho um problema com camisetas. Se não vai ter camiseta modelo feminino, prefiro a opção sem camiseta, porque NÃO VOU USAR, e nem toda prova tem essa opção. A P normal é de anão gordo, a M de gigante, e a G nem sei!
Cada vez mais as organizadoras tem que dar opções para as inscrições, com ou sem kit. Os corredores de raiz não estão nem aí para nossas perfumarias, querem um número de peito e um chip que funcione, e só vão tomar água, na verdade. E a real é que é isso que importa, e talvez algumas pessoas pudessem se inscrever em muito mais provas se houvesse preço diferenciado e a opção. 
A medição do percurso eu considero algo muito importante. Prova de 10km pode ter uma margem de erro, sei lá, de até 100m. Se a de 21km também tiver essa margem, ok. Mas não pode ter 400m a mais, como já vi acontecer. E não pode ter 400 metros a menos, como foi na Brisas de Itajaí ano passado. Fiquei com vergonha de dizer que fiz os 10km no meu melhor tempo, e não disse, porque não foram 10km! E para quem se prepara, inclusive para o sprint final, o erro na marcação gera consequencias desastrosas, imagina para quem faz 5km! Descobrir que tem que correr quase 10% a mais? Ou guardar para correr para a morte os últimos 200m que não existem? Não pode. 
E o percurso deve estar bem marcado, nem todo mundo corre com relógio com gps, e mesmo quem corre gosta de conferir a medição, e orientadores de retorno são bem importantes, porque corredor depois que larga na prova fica burro, só sai correndo, alguém tem que orientar. Já perdi um retorno...
Horário: a gente se inscreve porque quer. Então não pode reclamar muito do horário marcado para a largada. Eu fiz a meia maratona do Rio em 2014, a da rede Globo, que larga às 9h. Foi um horror para mim. Eles não vão mudar. Quem muda sou eu: não faço mais. 
Prova à noite: só faço em asfalto, sou míope, não dá certo em percursos com algum risco de eu me machucar, tropeçar, etc. Então não vou. Tem gente que ama. No crepúsculo, então, sou totalmente cega.
Com isso quero dizer que o horário quem define é a organização, e às vezes define mal, para nosso gosto (no verão, tem que largar cedo, e cedo é às 7h, para mim). Mas o que é realmente importante é respeitar o horário. Já fiquei na largada, depois de me aquecer, junto com todo mundo, esperando eles terminarem de "liberar o percurso" Como assim? Já teve prova que atrasou a largada em 20 minutos, se não me engano foi a meia de Florianópolis de novembro do ano passado, que na distância principal atrasou uns 10, e para o pessoal de 10km e 5km atrasou os 20. Já pensaram? Eu que tenho TOC com horário de tomar suplemento, comer, etc, fico em cólicas. 
Sobre escolha do horário: uma prova que começa cedo, termina cedo. Tem quem não goste de acordar de madrugada para correr, mas aí eu tenho uma notícia triste: é a maioria das situações, parceiro. O normal é ser cedão.  Eu acho ótimo, temos o dia todo depois já na alegria pós corrida. A Track and Field tem como grande vantagem largar às 7h. Em geral eu vou, volto, tomo banho e a família está começando a acordar, ou seja, não mexe com o esquema da casa.
Maratoninha, ou prova kids: não é item fundamental, mas se for para ter, que seja bem feita, com divisão por faixa etária (não tem como criança de 5 anos correr junto com a de 9), percurso medido, controlado, passagem pelo mesmo pórtico (é assim que se pega gosto), e medalha de chegada. As crianças merecem o respeito.  A Pink Run, que fizemos em outubro do ano passado em Itapema, teve um monte de problemas (por exemplo, o banheiro químico chegou faltando 10 minutos para a prova começar, e muita gente foi até lá de outra cidade), mas as crianças tinham até número de inscrição, então meu filho se achou o Bolt, porque eram 100metros para ele. Foi muito legal. Valorizamos. 
Massagem no final eu acho o máximo, um luxo, mas não tenho paciência para esperar. Fiz duas vezes: na prova do sesi em Itajaí ano passado esperando a premiação infindável, e este ano no BC 10k, na tenda da CEF...foi tão bommmmm. Mas são poucos os profissionais e muitos os corredores, a gente já sabe que não vai dar para todo mundo. 
Vejam, estou falando mais de questões que não envolvem tanto preferência, e sim organização em geral para a prova funcionar. Claro que você pode preferir provas em sábados do que em domingos, ou não pode correr aos sábados, ou preferia que todas as provas fossem à noite. Isso são preferências, mas não itens de qualidade numa prova. Quando a gente escolhe uma prova para fazer, deve tentar lembrar disso tudo. E se já conhece a organizadora,  sabe o que esperar. E aí decide se faz ou não.
Uma prova de qualidade é feita de organização de tempo, estrutura, premiação, respeito com os atletas, correta aferição do tempo líquido, banheiros em número e higiene suficientes...o conjunto de tudo isso não é tão fácil de encontrar, e olha que a gente vê provas todos os finais de semana por toda a parte. Os corredores são clientes, e nem sempre lembram disso. Podemos exigir algumas coisas essenciais. A prova do Sesi, realizada no domingo passado, foi daquelas quase perfeitas. O clima ajudou (item de sorte), premiação por faixa etária e categoria industriário, pontualidade, banheiros, kit interessante, hidratação e frutas, equipe atenciosa, fotos disponibilizadas no site...o percurso deu diferença, eu corri 10km100, tangenciei bem nas curvas, não subi em calçada nem cortei caminho...tinha subida, não era moleza o percurso. Para os 10km, duas voltas, e na segunda volta a subida parecia maior, claro. Aliás, o último km parecia medir 3 quilômetros, só por Deus!
Mas uma boa prova depende também da honestidade dos corredores. Eu fiquei sabendo, e não fui a única, que teve gente que cortou caminho, porque era possível. Não tinha tapete de chip durante o percurso (acrescenta no custo), e sim umas meninas anotando os números, mas depois do trecho mais difícil. E teve gente que não estava naquela parte e apareceu lá na frente. Bom, não vivo disso, eu sei que fiz o certo, como a maioria, mas fico pensando que graça tem uma pessoa que faz isso depois expor seu resultado. E já se viu isso em outras provas, até de circuitos conhecidos! Mas aí é pela consciência de cada um, né não?
De todo modo, o pessoal do Circuito Sesi está de parabéns pela prova. Eu sofri, mas curti também, meu esforço e treinos valeram a pena. 
felizona!! Foto retirada do site oficial 

Será que esqueci alguma coisa importante, fundamental ou desejável para uma prova de corrida? Quem lembrar me conta!
E aguardem que depois da série maratona, vem aí a série distâncias curtas por corredoras velozes. 




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