A história de alguém fora do grupo de risco: de amiga de infância a coleguinha na corrida, com vocês a meiguice da Priscila Leite!

Eu conheço a Pri há mais de trinta anos. Aiaiai...A gente fez catequese juntas e, portanto, a Primeira Comunhão. Ainda ontem. Como Florianópolis já foi bem menor, a gente era vizinha de rua e também as famílias têm casa na mesma praia...ah, sim, em Floripa, embora seja litoral, as pessoas têm casa de praia e casa na cidade (as que podem, sempre foi o sonho de todo mundo), e só vão para a praia no verão, ficando dois meses direto. Esse negócio de praia no inverno é coisa de haule. 
Enfim. Não bastando isso, a Pri também fez faculdade de direito na UFSC, mas iniciou no semestre posterior ao meu (a turma de agosto, que eu morro de inveja, porque teve um semestre de pura felicidade depois de estudar para o vestibular). Apesar disso, ou talvez até por isso, nos encontramos sempre casualmente, incidentalmente, e nunca fomos tão próximas, embora sempre tenhamos mantido contato suficiente para saber o básico da vida uma da outra. Até que ela esteve doente e eu não soube. 
2016, maio. Primeiro Treino Coletivo Mulheres que Correm, areias de Balneário Camboriú. Inscrições diretamente comigo e as meninas, tudo bem amador ainda, combinando por email e facebook. E a Priscila quis muito vir, se inscreveu logo e fiquei super feliz em vê-la naquele sábado de sol depois da sexta-feira chuvosa. E aí ela me contou: era a primeira vez que ia correr oficialmente depois do câncer de mama. E eu: oi? que câncer de mama? 
Aquele dia foi muito importante para ela, que não era a única pós câncer correndo (a outra também estará no blog), e se foi importante para ela, foi também para mim e as outras mulheres que correm, porque nosso objetivo foi atingido: felicidade pela corrida, libertação, superação!
Por isso logo pensei nela para inaugurar o outubro rosa que vai ser em novembro, e conversar sobre o câncer e a corrida na vida dela. 
A Pri é uma pessoa doce, que parece estar sempre tranquila e sob controle (a gente nunca sabe...), já passou por outras poucas e boas há alguns anos, e parece superar tudo com sabedoria e bons pensamentos. 
Agora sei que ela descobriu em um exame de rotina, em 2014, com 39 anos, sem estar em grupo de risco. Ela acha que poderia ter sentido no autoexame, e isso serve para dizer para todas fazerem com atenção. 
Obrigada, Pri, por querer falar sobre isso, porque ajuda muita gente. 
Com vocês, Priscila Leite Alves Pinto!



1. Você corria antes de ter câncer? 
Sim, há uns dois anos mais ou menos, tinha adotado a corrida como prática de atividade física regular, pois era possível fazer a qualquer momento e em qualquer lugar e na rotina da vida de mãe, mulher e profissional era o que tinha, o que dava e eu gostava. 
Nota:É isso, né, funciona para todo mundo!

E depois, o que te levou a correr, ou voltar a correr? 
A vontade de voltar a viver normalmente, sentir viva fazendo o que gostava. Vontade de voltar a sentir meu corpo evoluir novamente.
Nota: tenho a sensação de que a corrida é o melhor esporte para sentir o corpo vibrando e vivo. Cansa, a respiração falha, pode doer, sua mais do que tudo...claro que pilates, natação, o que for, é movimento, mas a corrida mexe o corpo todo naquele momento, e tem a solitude, a necessidade de se conectar consigo mesma. Percebo isso em várias doenças e mesmo a gente lesionada, fica lá fazendo elíptico e parece que não fez nada porque não dá o mesmo barato.

2. Durante o tratamento, pôde correr? 
Não. Meu tratamento foi muito rápido, pois fiz apenas radioterapia durante 30 dias. A mama inchou muito e não era recomendado, tampouco adequado. 
Quanto tempo levou? 30 dias. O médico recomendou ou teve restrições? Não recomendou por conta do tipo do exercício, já que a mama balança quando a gente corre, além do que logo terminaria, então, o melhor era fazer o tratamento e depois voltar à vida normal.
Nota: a experiência da Pri é diferente de outras que conheço, que ficam mais de um ano na função quimio, com muitas sessões, então foi radical para ela naquele momento, zerou e parou tudo, mas depois voltou logo, não sentiu tanto. 

3. Qual a maior dificuldade em fazer exercicios durante o tratamento ou o pós operatório? 
No pós operatório é o medo sentir dor, pois apesar da cicatriz ser relativamente pequena, por dentro foi muito mexido, até a altura da axila. Quando voltei a correr eu usava dois tops para tentar minimizar o máximo o balanço para não sentir dor no movimento. Isso durou um ano mais ou menos e depois voltei a usar um só.
O primeiro dia deve ser muito punk. 

4. As pessoas que você conheceu na corrida foram importantes na fase de tratamento contra a doença? 
Muito importantes. Quando descobri a doença tinha acabado de fazer o primeiro Volta à Ilha com pessoas fantásticas. Daí no ano seguinte a meta foi refazer a prova com elas e deu certo. Foi um momento muito positivo.
O Volta à Ilha tem disso, dá a sensação de união pela corrida, e fazer prova em equipe ajuda a ter meta com compromisso. 

5. O que mudou em você como corredora após ter câncer? 
Aprendi a ser um pouco mais paciente, menos imediatista (na verdade é um exercício diário), respeitar meu corpo, minhas limitações. Aprendi também que posso fazer o que quero, quando eu quero e como eu quero. Aprendi que a disciplina de correr (cumprir a planilha) me faz bem, tanto fisicamente, quanto mentalmente e por isso me esforço, dentro da minha rotina, para conseguir.
Dica da entrevistadora: a gente não precisa ter câncer para mudar nossa loucura né? Aprender com a experiência alheia é super válido!!! Não se prive de correr quando puder, não deixe de fazer isso se você gosta, mesmo que tenha torcida contra, porque pode ser que não possa correr por um tempo. E ao mesmo tempo, tenha paciência, metas são para alcançar com planejamento, dedicação. E cada dia que a gente corre é um lindo dia para correr. 

6. Há algo que você gostaria de compartilhar com outras mulheres e com homens também, sobre o momento em que você descobriu o câncer? 
Foi um momento bastante difícil, de sofrimento mesmo, já que era uma coisa completamente fora do contexto, eu não fazia parte de grupo de risco, não tinha casos semelhantes na família, foi antes dos 40 anos, eu tinha amamentado dois filhos, levava uma vida saudável em alimentação, prática de atividade física, enfim, eu achava que fazia tudo de bom para meu corpo e minha saúde, de maneira que receber a notícia da doença não foi fácil. A primeira coisa que eu fiz foi questionar, pois difícil entender por que comigo, meus filhos eram pequenos (tinham 5 e 7 anos) e eu só pensava que não podia morrer por causa deles.
 Mas muita coisa mudou depois, foi um aprendizado enorme. Vi que nem todo câncer necessariamente mata (parece óbvio, mas quando acontece com a gente...), que descobri o meu muito precocemente: foram 5 meses desde a descoberta, a realização da cirurgia, a decisão de qual tratamento seguir (descartar a quimioterapia também não foi fácil) e o término da radioterapia. Ainda tem um tratamento via oral que vai durar uns sete anos ainda, mas que está incluído na minha rotina. Então, acho que vale deixar a dica sobre a importância da prevenção e da realização de exames regularmente. Quanto antes você descobre, menos agressivo é o tratamento e, por conseguinte, mais rápido é a retomada da vida pessoal.

Esse negócio do "por que eu?" acho que é meio geral, quando se tem uma vida considerada saudável e sem casos na família, em idade que a gente não imagina. No livro a Debs fala sobre isso, e na palestra dela também, sobre você mudar e pensar o que então vai fazer com isso, a partir dessa descoberta, e parar de pensar por que foi com você, já que isso não faz a menor diferença depois para a cura. Eu sempre me emociono quando a Debs fala, e agora com a Pri também, sobre a parte dos filhos. Não é que quem não tenha filhos possa morrer "tranquilo", mas a gente tem a sensação de que não pode nem ter uma gripe forte, porque tem que levantar da cama para cuidar deles. E isso também motiva pacas, mas apavora!
A descoberta precoce realmente é fundamental para a nova sentença, que é de cura. 


Eu adorei as duas fotos. Lá em cima tem a Pri hoje, e essa é de antes, vejam que é Volta  à Ilha pelo número. Embora nessa tenha mais sorriso de felicidade absoluta, a de cima mostra uma corredora madura, concentrada no movimento e com muito mais técnica. E o cabelão, né, gente, que a maioria de nós acaba desistindo porque é empenho que o tempo não permite. 

Comentários

  1. Que legal esta matéria! Nota dez p/ entrevistada e entrevistadora! Duas queridas!

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