A corrida e a família: solitária ou solidária?


Acho que post vai  parecer azedo. Vou começar com umas comparações, não me julguem. Mães dizem: vai acordar às 5h30 para correr? Sua louca. Mas quando alguém  diz: vou acordar às 6h para ir à missa, é lindo. Pareceria falta de respeito dizer outra coisa, não? Ah, mas é diferente. É religião. Discordo. É prioridade. Acordar para correr não exclui ir à missa. Pode ir à missa ou à igreja em outro horário também. Não precisa sempre ter cara de sacrifício. No caso da corrida, tem o sol no verão, tem as crianças que acordam depois...Tem gente que acorda às 5h30min para esperar o sol nascer. Para meditar. E tem quem nem foi dormir ainda às 5h30min. Cada um com as suas preferências. E prioridades. 
Mas é muito nítido o tom de crítica ao meu anúncio de acordar cedo, que pode ser 6h30min, 7h, inclusive às 8h, que nem cedo é, mas é porque a crítica é ao fato de eu acordar exclusivamente para ir correr, mesmo que isso não afete em nada a rotina familiar. Por que? E mais. Será que isso acontece com todo mundo? Não que a opinião e a crítica de todo mundo interesse, mas quando é no âmbito familiar, pode incomodar, sim. 
Hoje eu assisti ao Programa Fôlego, com o Gustavo Maia, cobrindo a prova Two Oceans, que acontece em Cape Town, na África do Sul, uma ultra de 56km que é considerada a ultra mais linda do mundo, e por muitos a prova mais linda do mundo. A Sissa Vieira, de Blumenau, está lá para correr, e eu quis saber mais, porque realmente parece incrível. Sim, você corre uma parte margeando o oceano Índico e o resto o oceano Atlântico, mas isso nem é o mais legal. Só assistindo para captar. É diferente mesmo. 
Mas o que achei mais emocionante foi o fato de que o Gustavo correu com a irmã dele, Mariana, e era a primeira ultra dela. Tem tapete de chipagem no km50, quando a pessoa pode se considerar ultramaratonista, inclusive. E eles correram juntos quase o tempo todo, conversando, apoiando um ao outro. Até porque esse tipo de prova não é sobre o tempo que você vai levar, é sobre como você vai curtir, o quanto você escolherá ser feliz ou sofrer para concluir, a experiência que aquilo vai ser na sua vida. O tempo é só uma questão de não ser eliminado nos pontos de corte. 
E a chegada deles...é muito linda. A parceria, o companheirismo, a cumplicidade, são muito palpáveis. Claro que me peguei pensando que isso não vai acontecer comigo. Não com o irmão mais velho, o que não faz atividade física nenhuma no momento (sim, ele trabalha pacas, tem filha pequena, mas também não tem no exercício uma prioridade, isso é com ele, não julgo), nunca correu e não pretende, pelo menos nos próximos anos, correr. Não dá para ter esperança próxima. Tenho meu irmãozinho Ralf, de 11, esse aí dá tempo, posso investir como no meu filho, porque na Two Oceans o Gus mostrou mãe e filho correndo juntos, que é algo espetacular. 
Mostrei partes do programa para o Arthur e os olhinhos brilharam com a paisagem e a ideia toda. 
Claro, porque aquela chegada é só o coroamento, é a festa de formatura. Teve a preparação, meses conversando e trocando ideias, e treinando, mesmo que não juntos, mas um falando para o outro, apoiando o outro nos dias de treino ruim, e festejando os dias ótimos. Entendendo o que o outro estava passando. E depois combinando a viagem, a chegada, a comida, a preparação. Tudo isso faz parte, e a preparação para a festa pode ser tão legal quanto a própria. 
Mas a real é que nem toda família tem mais de um membro que corre. Minha amiga Vanessa tem o privilégio de ter pai corredor, acho o máximo, porque é corredor raiz, de Blumenau, dos tempos áureos do atletismo da cidade, com muito para ensinar para nós, Nutellentos.  O meu pai não corre (quem o conhece sorri ao imaginá-lo correndo, tenho certeza), mas apoia muito, como já ficou claro aqui no blog. E um dia irá assistir a alguma chegada minha emocionante, e vai ser lindo. Basicamente só ele. 
E eu fico pensando como será que é nas outras famílias e nos outros grupos. Sim, porque tem a parte dos amigos também. Aos poucos, a gente vai fazendo amigo corredor e é natural que tenha mais facilidade em combinar programas com ele (que terminam cedo, naturalmente). Mas você tem a turma da firrrrma, do colégio, da faculdade...e a maioria fala: ai, lá vai o(a) maluco(a) embora porque tem que acordar para correr...
O que se passa na cabeça dos familiares, afinal? Porque é como eu disse, se a pessoa me disser que vai acordar cedo para ir pescar, eu vou dizer: massa. Se é isso que a faz feliz, que ela tem como prioridade, quem sou eu na fila do pão para ter opinião? 
Então desenvolvi algumas teorias, todas super bem embasadas (haha), sobre o assunto. Primeiro, acho que a corrida, por ser individual, e para muitos ter caráter competitivo, passa por interesse egoísta. É algo que a criatura vai lá e faz, sozinha, sem depender de ninguém, e tendo por objetivo uma satisfação pessoal unicamente. Mesmo que corra por uma causa, o momento de correr, propriamente dito, é, sim, altamente individualista. E é aí que eu pergunto: qual o problema? O problema é que tem gente que não tem coragem de fazer nada só para si, que sempre acha que seus atos tem que reverter para filhos, marido, pais, amigos, colegas, trabalho, sociedade. Acham que o banho é o seu momento (acho estranhíssimo). Essas pessoas não percebem que ao praticar ações com finalidade única de bem-estar ou satisfação pessoal, ficarão mais felizes em depois agir em prol dos outros. Existe uma parte da vida só da gente, e ela é importante. Eu acredito que, salvo pessoas muito, muito especiais, geralmente  quem só vive para os outros vai criando dentro de si um ressentimento, geralmente oculto, mas que um dia se transforma em um discurso horroroso de "eu deixei de fazer tudo por vocês!!!", cobrando um retorno, um reconhecimento, que não virá, porque ninguém sabia... e sabe o que? ninguém mandou.
Tem também quem só tem medo da corrida. Sim, existem essas pessoas. Têm medo do novo, do desconhecido, daquilo que acreditam que nunca será para elas. Para essas pessoas, a gente tem que exercitar paciência, porque só quando elas estiverem abertas a saber mais , poderemos incentivar a correr. Mas há chances, porque eu mesma nunca me imaginei corredora. 
E existem as pessoas que simplesmente eu não entendo. São aquelas pessoas que desejam sabotar a sua dieta porque não conseguem seguir nenhuma. As que dizem que que você é chata porque segue a dieta, e te oferecem a torta com chantily dizendo que você pode, porque você já faz dieta. Oi? São as pessoas que talvez, talvez, gostariam de ter alguma determinação e força de vontade para iniciar ou uma dieta, mudar de emprego, de profissão, de cidade, de marido, de cabelo, ou começar uma atividade física, que pode ser a corrida, mas  seguem a lei de inércia de forma resoluta. E quando vêem outros iniciando, tentando, mudando, correndo, a reação é de achar que não vai ser bom, não vai dar certo, não pode dar, porque, afinal, elas não fizeram isso. Ainda. Sempre  há tempo. Tempo de iniciar um novo estilo de vida, novos hábitos alimentares, novo trabalho, nova forma de encarar sua vida. E mudar, se quiser, ou aceitar, se preferir. E muitas vezes é a família que trabalha assim, fazendo  bife à milanesa para quem não come gluten, te olhando como se fosse um ET porque sai para correr 15km num sábado, e isso não é por mal, é muito mais uma defesa do que um ataque. Vale a pena tentar conversar? Depende. Gerar um estresse nem sempre vale e a pena.  
Pode ser melhor compreender e aceitar que vai ser assim, sem apoio, sem empatia, e exercitar você mesmo a capacidade de ir em frente e fazer o que você acha que te faz bem apesar da falta de apoio familiar. Se não tem uma família solidária na corrida, uma família de sangue, pode parecer solitária, mas tem a opção de ter a solidariedade da família que escolheu, ou que o Universo te deu, por sorte ou por merecimento, jamais saberemos. A família da corrida, da amizade. 
Então agora, quando penso em uma super prova que com parceria familiar seria beeeeem mais legal, mas não daqui a quinze anos, para o filho ir junto, e sim dois ou três, eu penso que tenho o privilégio de ter uma irmã de alma que poderá compartilhar esse sonho, e vamos percorrer o caminho juntas. Também apoiaremos as escolhas individuais uma da outra, e entenderemos quando os planos não derem certo porque temos uma vida bem complexa além da corrida. Mas saberemos que podemos contar uma com a outra sempre, na corrida  e fora dela. E só de saber isso, o coração já aquece. 









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